torde monamú

On April 11, 2013 by miki

tenho um caso de amor declarado com o restaurante tordesilhas. é um dos meus “restaurantes favoritos nº 1” (só tem mais um nessa categoria no momento :). prova disso é que logo nos primeiros tempos, já arrumei um apelido para ele: “torde”. porque comigo é assim, se garro amor, logo vem um apelidinho. eu sei, sou terrível.


[um pedaço do prato nosso + gumpa e salada paulista]

no último dia 24 (de março), foi o derradeiro de sirviço ao público no endereço tão conhecido meu: rua bela cintra, 465. foram 13 anos nessa localização, dos quais eu frequentei, pelo menos, 12.

conhecemo-nos quase que por acaso: na época, o vulgo ainda dizia que eu era uébi tissáiner e eu vim de mudança com todos os meus colegas de trabalho da verbo divino para a bela cintra. foi um pisco para descobrir o torde e começar a amá-lo. eu e alguns amigos queridos batíamos ponto por lá. teve uma época em que eu estava tão viciada que ia 3 vezes por semana. bons tempos aqueles.


[dona dêga, foto por ethnocentrics]

assim como quem não quer nada, fui ficando amiga de todos por lá: zé maria, host e irmão da chef, sempre sorrisos e boa prosa; ivo, marido da chef e sempre por ali também; preto, um dos meus garçons prediletos – há 20 anos na família tordesilhas; zé lima, um amor todo especial com as pimentas do reino tôrdico (só para citar dois dos meninos da brigada de salão cujo serviço à mesa é impecável). e o que dizer de dona dêga, a mãe da chef? um docinho de coco, cabelos brancos, óculos e sempre risonha. às vezes, ela nos brindava com a sua alegria serena no quintal do torde. puro amor. mas claro que deixei o melhor pro final né? ela, a estrela-guia, dona mara, maroca, pessoinha incrível, amorosa, apaixonada e apaixonante.


[preto, foto por ethnocentrics]

nem sei bem como, mas o fato é que fui me aproximando e me apaixonando por essa mulher incrível. claro que a primeira e mais óbvia “isca” é a sua esmerada cozinha. comer ali era e continua sendo um sonho, um refúgio enlagoado, com estrelas e brisa no rosto. às vezes, na aridez de um dia difícil no escritório, era exatamente assim que eu me sentia: acolhida. só o arroz renderia um conto inteiro: o perfume que ele desenha quando chega à mesa, branco, brilhante e soltinho. daria para comer puro (que é o que faço muitas vezes antes de iniciar a refeição). duas ou três garfadas para sentir o amido derretendo da boca, uma profusão de sabores que ninguém nunca imaginaria que um simples arroz poderia guardar. e aquele bife de contra acebolado sapecado em alguma frigideira cascuda, quiçá de ferro, calejada pelos anos de uso, mas – até por isso – a melhor amiga da cozinheira? e a mandioca, meu deus, a mandioca… fritinha, a casquinha dourada e crocante, sequinha e o interior molinho, quase um creme… *** suspiros *** tô com fome só de lembrar, risos. eu poderia ficar aqui, discorrendo por páginas sobre tudo o que eu acho de maravilhoso naquela cozinha, mas acho melhor cada um tirar a sua própria prova :). só pra finalizar, digo que meus dois pratos do coração no torde são: “o prato nosso de cada dia” e “costelinha de ripa com risoto mulato”. criação do coração. a mim, esses falam diretamente do coração da chef para o meu. posso ser petulante – risos – mas é exatamente-assim-desse-jeitinho que eu sinto.

tanto amor não poderia me manter por muito tempo longe de ir ter com a própria chef né? mesmo eu sendo um poço de timidez e de preocupações em “não incomodar” as pessoas, fui trocando uma palavrinha aqui, outra ali e quando vi, já estava batendo papo com ela. ai, que enxerida eu! xuro, do jeito que sou, nem sei como é que eu sou capaz dessas façanhas. mas é que quando alguém me encanta, me emociona… é como se o que há de mais amoroso em mim se libertasse sozinho e quisesse reverenciar, de alguma maneira, àquela pessoa. mas não no sentido simplório e triste de adulá-la, mas sim, dizer-lhe, com o coração, o quanto sua obra e/ou ela mesma provocou uma festa particular e toda especial dentro de mim. uma experiência assim é algo que se leva para sempre vida afora sendo, portanto, daquelas coisas que realmente importam.


[mara salles, foto por ethnocentrics]

me sinto extremamente grata à vida por ter podido me aproximar de alguém como a mara. ouso dizer que nossas inquietudes criativas são criaturas afins. admiro sua coragem, sua dedicação, a maneira carinhosa e acolhedora com que ela trata os funcionários, suas memórias, suas viagens e pesquisas pelos confins do brasil sempre atrás daquilo que é mais sertanejo, grotanesco, populinho e paneláceo – onde a verdade da comida brasileira se esconde: a beleza escondida na simplicidade, no fazer aprendido de geração para geração, quase um secret de famille.

é isso que eu encontrei em seu lindo livro (que soube recentemente, ganhou primeiro lugar no jabuti de 2012). demorou meses para que eu o tivesse em minhas mãos, o coração aos pulos de alegria, contentamento e ansiedade por lê-lo. mas tal qual clarice*, eu, maravilhada por aquela prosa tão íntima e colorida, que me fazia encher a cabeça de sonhos e me fazia viajar a seu lado pelos rincões mais distantes desse nosso brasilsão tão lyndo, fiquei terrivelmente dividida entre ler avidamente, entregando-me vertiginosamente àquelas páginas ou sorvê-lo aos golinhos (isso sim, como clarice), pouco a pouco, me deliciando com a ideia de “esquecer que tinha o livro só para logo depois dar de topa com ele e me surpreender com o fato de que o possuía.”


[ambiências, histórias e receitas do brasil]

bom, como eu sou terrível e não tenho um pingo de juízo (isso sem falar na petulância que vez ou outra me assalta) fiz um bolo de cenoura com cobertura de chocolate e nele recortei dois coelhinhos. era o meu presente de páscoa-despedida daquele oásis na bela cintra. quem, em sã consciência, dá de presente comida feita por ela mesma para uma chef estrelada como a mara? bom, além de “vestida para espantar gente na rua”, vocês podem começar a me chamar de “doidivanas da caçachola” (caçarola com cachola).

pra terminar, eu queria contar que, antes do presente-doidivanas, eu escrevi e ilustrei um livrinho (bem do tipo que eu gosto de fazer: de um para um, ou seja, de-mim-para-você) e dei de presente pra mara. ele se chama “a cozinha mágica da mara”. ele também tem toooda uma história, mas esta vai ficar para um outro dia que este post já está pra lá de gigante, risos.

maroca querida, vida longa ao querido torde, nos vemos por lá!

beijos amorosos sabor tapioca,

da sua fã,

m.


* clarice conta em “aprendendo a viver”, como conseguiu (a duras penas) “emprestado pelo tempo que quisesse” o livro “reinações de narizinho”, um tesouro inestimável e praticamente inacessível em seus tempos de criança e de como, maravilhada, convencia-se a si mesma de que não o tinha em mãos para dali a pouco encontrá-lo e poder se encantar novamente e uma vez mais. lia-o aos pouquinhos para não acabar logo <3.


2 Responses to “torde monamú”

  • Miki
    Delícia ler seu post!
    E que coração grande e doce é o seu! Repleto de lembranças e vida.
    Sempre quando vejo e-mail seu fico ansiosa (no melhor sentido) para ler.
    Que bom que existem pessoas como você.
    Bj e abraço

  • oi, adriana querida!

    fico feliz em saber que o mundomiki te faz mais alegre. saber disso é um aconchego para o meu coração!

    que bom que existem pessoas também como vc que passam por aqui e leem o que eu escrevo. porque, de outro modo, nada disso teria sentido!

    beijos e merci,
    m.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *