capítulo 6

sonhos falam?

por: kiku
para ler ouvindo: “Livros” por Caetano Veloso

Enquanto todos ainda descansam, eu resolvi dar uma passadinha por aqui para contar as novidades.

Chegamos até que bem chez(1) Bia. Só o pobre do Tampopo sofreu um pequeno acidente: perdeu os cabelos durante a viagem…

A Bia e as meninas nos receberam muitíssimo bem! Temos um verdadeiro quarto japonês só para nós, um luxo só. Fiquei absolutamente encantada com a amabilidade e gentileza delas.

Esta noite, saímos para a nossa primeira expedição. Está claro que o teimoso do Momiji nunca me ouve, mas ele teve o que mereceu: sua teimosia deu em nada e, como sempre acontece, o meu palpite estava correto… não sei porque ele nunca aprende! Ai, ele cansa um pouco minha beleza nessas horas!

Enfim, quando a noite já parecia estar perdida, conseguimos encontrar dois sonhinhos! Depois de tudo, levando em conta que foi a nossa primeira expedição, concluo que ela foi muito bem-sucedida!

Estávamos todos bastante cansados e voltamos praticamente calados para casa. Só discutimos por algum tempo para chegar a um acordo sobre onde acomodaríamos os sonhos enquanto eles estivessem “hospedados” conosco. Bom, “hospedados” é maneira de dizer, né. Não creio que eles estejam lá se sentindo muito à vontade, mas… il fault(2)!

Bom, talvez fosse melhor não ter discutido, porque não conseguimos chegar a conclusão alguma. Ou melhor: chegamos à conclusão de que não havia ninguém melhor para dar esse palpite do que a Bodipã. Afinal, foi ela quem nos afirmou com certeza indubitável que seu precioso baldinho era o apetrecho ideal para carregar os sonhos durante a “caçada”. E ela estava certa!

Pois foi o que fizemos assim que chegamos em casa. Bia e as meninas nos esperavam em pé na porta da frente. Bia sorria suavemente. Já raiava o dia e ela nos ofereceu um belo café-da-manhã que, polidamente, recusamos. Estávamos cansados demais para qualquer coisa… será que foi muito grosseiro da nossa parte? Espero que ela tenha compreendido.

Bom, no que tange a acomodar os sonhos, estávamos certos! A bÔ, que parecia já nem se lembrar de que tinha ficado irritadíssima com a história do baldinho, disparou certeira:

– bÔ sabe! É só botar eles no aquário de vidro néééé!

Pois bem, mais pra lá do que pra cá, já trançando as pernas de tanto sono, ajeitamos o grande aquário que Bia nos emprestou o melhor que conseguimos e acomodamos os sonhos mui delicadamente ali. Tratei de arranjar uma caminha improvisando com um futon(3) de seda, enquanto Momiji providenciou frutas e água frescas. Bem, não sabemos ao certo o que os sonhos comem, de todo modo…

Logo depois, todos caímos no sono, exaustos que estávamos.

Eu dormi bem pouco. Estava muito agitada e dormi só o suficiente para tirar o cansaço do corpo. Queria ficar perto dos sonhinhos, perscrutá-los. Por isso, nem consegui dormir mais, embora meu corpo ainda sentisse o cansaço da viagem e da expedição.


Devagar e em profundo silêncio, acendi minha pequeníssima lanterna e fui me aproximando do aquário dos sonhos. Na pressa em voltarmos para casa, nem tínhamos reparado direito neles.

Um era bem menor, mais mirradinho do que o outro. E de um branco resplandecente que até parecia brilhar um pouco, enquanto o outro tinha uma cor verde-bile um pouco estranha…

Fiquei observando-os atentamente por muito tempo. Olhando cada detalhe. Como se moviam. Como respiravam.

Então, tentei um primeiro diálogo. Mas foi em vão. Eles olhavam e piscavam parecendo não entender o que eu estava dizendo ou fazendo.

Será que estavam apenas com medo? Será que minha linguagem era incompreensível? Ou será que eles eram incapazes mesmo de falar? Mas, se assim fosse, como é que a gente ia descobrir a resposta para o que viemos procurar? Um desesperozinho começou a cutucar lá no fundinho, mas eu tratei logo loguinho de deixar claro que quem mandava ali era eu e fiz com que ele ficasse quietinho em seu devido lugar!

Bom, como aquilo me parecesse infrutífero, resolvi dar uma volta pela casa, quem sabe arejando eu não tinha alguma outra idéia?


Pensando assim, saí silenciosamente do quarto, pois não queria acordar meus amigos que descansavam a sono solto. Afinal, ninguém tinha nada a ver com a minha insônia, não é mesmo?

Corri o shouji levemente e fui caminhando pelo corredor. Desci até o andar térreo, onde Bia e as meninas tomavam, enfim, seu café-da-manhã. Desta vez, resolvi me unir a elas. Então, de repente, no meio da refeição, me veio uma idéia: a biblioteca! Talvez eu encontrasse algum material que pudesse me ajudar por lá! Pedi, então, permissão à Bia para iniciar minhas pesquisas por ali.

– Mas, é claro, querida Kiku! Imagine, da próxima vez, nem precisa pedir, combinado? Só peço que seja cuidadosa no manuseio dos volumes, porque alguns são bastante raros e antigos.

E assim me meti naquela imensa e maravilhosa biblioteca. Como era possível não ficar estupefato num lugar estupendo como aquele?

De alto a baixo, nichos de madeira foram feitos especialmente para abrigar os moradores mais preciosos de uma biblioteca: os livros. Ainda que, aqui e ali, um objeto quebrasse a sua sisudez: uma girafa de murano, uma escultura, um porta-retratos… a altura do recinto era uma das coisas que mais impressionava: olhei para o alto e parecia que nunca mais acabava. O aposento era em formato circular e, lá em cima, uma bela clarabóia deixava passar a claridade do dia e enchia o lugar com uma luz morna e agradável. Enfim, quem é que, em sã consciência, não gostaria de estar ali?

No chão, um belo e fofíssimo tapete vermelho convidava a um momento preguiçoso acompanhado de seu livro predileto. Em um dos “cantos”, uma confortável poltrona que, com certeza, era destinada a abrigar e a abraçar com afagos os corpos de leitores vorazes. Uma imensa luminária pendia graciosamente bem acima dela, fazendo com que aquele ponto ficasse iluminado na medida certa: claro o bastante para que você lesse tudo com conforto, mas aconchegante ao mesmo tempo. Ao lado, uma mesinha para apoiar o que quer que esse sortudo leitor pudesse precisar: um copo d’água, um marcador de livro, um caderninho de anotações… do outro lado, uma espreguiçadeira e muitas almofadas capazes de acomodar uma porção de gente confortavelmente. No centro, um aparador de partitura que, logo adivinhei, servia para apoiar um livro quando, por exemplo, alguém tivesse a idéia de fazer um sarau. Nossa! Um sarau naquela biblioteca era algo muito legal!

Sentei-me por um momento na poltrona e deixei meus olhos e meus pensamentos voarem de lá para cá por uns instantes. Às vezes, gostava de fazer esse exercício de livre associação e, muitas vezes, encontrava conexões improváveis dessa maneira. Foi então que me lembrei… num passado distante, a tia-avó de um primo a quem eu me afeiçoara muito, começou a me ensinar como trabalhar os poderes telepatas que ela disse ter percebido em mim. Mas eu era nova e, confesso, um pouco tola e não me dediquei tanto quanto eu deveria… ahhh, por que eu não fui mais dedicada quando podia? =(. Acho que poderia ser bem útil agora! Bom… estou meio enferrujada, mas… quem sabe?

Com essa idéia na cabeça, voltei a correr os olhos pelas vastas prateleiras da biblioteca. Aqui não, aqui também não, aqui não… porém, ao passar os olhos no último nicho, lá em cima, tive um pressentimento. Algo me dizia que aquele livro podia ter uma pista.

Apanhei a escada de correr e a dirigi até o ponto onde o livro se encontrava. Subi vários degraus, tomando cuidado para não escorregar. Cuidadosamente, tirei o imenso livro da estante e fui descendo cheia de cautela.

Era um tomo grande e antiqüíssimo de J. B. Rhine.

Coloquei-o, cheia de curiosidade, sobre o aparador de partituras e comecei a folheá-lo avidamente. Hummm… acho que estou no caminho certo =)!

Aguardem cenas dos próximos capítulos!

Beijos da Kiku


Participe! Será que a Kiku vai mesmo conseguir descobrir algo usando seus poderes telepáticos? O que você acha? Se tiver uma sugestão, escreva nos comentários aí embaixo ^^!

Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.


Notas:
(1) chez Bia: (francês) expressão que significa “na casa de…”. No caso, na casa de Bia.
(2) il faut: (francês) expressão que significa “é preciso, é necessário”.
(3) futon: (japonês) espécie de edredon, utilizado em dias bastante frios. O futon é geralmente envolto por uma capa de seda com belos motivos tipicamente japoneses como o grou.



este post foi originalmente publicado em 24.abr.2008 ~ 14:51

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