Minha Obachan querida e seu pé-de-moleque fenomenal

On February 2, 2007 by miki

A Valentina, do Trembom, promove um delicioso evento, o “Comidas da Memória” e, como participante, aqui deixo uma das minhas lembranças mais queridas da infância:

Naquela época, morávamos em São Paulo: eu, meu pai e minha mãe. E meus avós maternos moravam em Ribeirão Preto, cidade do interior paulista. Havia algumas datas em que toda a enorme família se reunia e era uma festa em muitos sentidos: muita comida, principalmente pratos japoneses como makisushi (um tipo de sushi “de criança” digamos assim, recheado com legumes cozidos, shiitake, gengibre curtido…) e nishime, que estavam presentes invariavelmente e ainda pastéis da minha tia Toshi-chan, a massa que ela mesma preparava, o pastel submergia no tacho de óleo fervente e boiava feliz com bolhas enormes e deliciosas na casquinha crocante… as crianças correndo para todos os lados, fazendo a maior bagunça, os primos maiores cuidavam dos menores e os um pouco maiores ajudavam na cozinha…

Meu pai nunca gostou de dirigir, então, levantávamos cedinho, de madrugada mesmo e pé na estrada! Desses dias, lembro-me sempre de comer um miojo que minha mãe fazia com muito carinho, nunca uma sopinha como recomenda Momofuke-san nas instruções da embalagem, mas sim mais sequinho, apenas meio pacotinho de tempero (sempre o de galinha caipira, o meu predileto até hoje) e uma colher caprichada de margarina. Era o meu menu antes de entrar no carro, as poucas vezes em que eu comia o tal macarrãozinho instantâneo mágico!

Invariavelmente eu enjoava na longa (para criança, tudo o que dura mais do que uma hora é longo, não é mesmo?) viagem, a gente sempre parava em um ou dois postos no caminho. Um deles tinha um parquinho para as crianças brincarem, mas eu nunca achava que ficava tempo suficiente (rs). E lembro-me também de uma “bala” de goma que vinha em formato de uma tangerina: eram os próprios gomos feitos de bala de goma e polvilhados com açúcar em volta. Ai, uma delícia, uma pena que eu nunca mais achei essa maravilha…

E, finalmente, chegávamos ao nosso destino: lembro-me, com nitidez impressionante, da entrada da cidade, a fábrica de bolachas Mabel ficava bem ali, e o cheiro de bolachas assando invadia nossas narinas, meu rosto feliz com os cabelos voando na janela do carro…

Meu pai parava o carro ali na frente da casa de jardim grande e garagem enorme, lajotas vermelhas cobrindo o chão, um sol escaldante. Lembro-me da minha Obachan já velhinha, cabelos brancos, mas sempre com um olhar cheio de ternura. E ela sempre deixava preparado o meu doce favorito que ela mesma fazia: pé-de-moleque/paçoca (ainda tenho dúvidas sobre a sua natureza). Ainda agora, posso ver a assadeira de alumínio coberta com a massa de amendoim brilhando ao sol. E sentir o seu aroma. Nas minhas lembranças, nunca houve um pé-de-moleque como aquele. O melhor, incomparável. Eu até sou fã de paçoca-rolha por exemplo. Mas, como diria um querido amigo, nesse quesito, a minha era a “Obachan-bornay”, ou seja, entra na categoria hors concours!


3 Responses to “Minha Obachan querida e seu pé-de-moleque fenomenal”

  • Miki-chan, viajei com vc agora com esta terna e linda estória! Como as ba-chan tiveram grande importância na vida de todas nós!
    Super comovente!
    Acho que me lembro dessas balas de goma em formato de laranja, também adorava esses “doces de buteco”! rsss E esse pé-de-moleque, tem jeito? rsss

  • Miki, que história linda, minha amiga!
    Essas coisas da infância têm um sabor todo especial para nós hoje em dia, não é mesmo?
    Lembra das bolachas Mabel que tinham o formato dos Flintstones?
    Vou querer fazer qualquer hora aqui o pé de moleque da sua avó, obrigada por compartilhar conosco tudo isso!
    Beijos!

  • akemi, só é! eu não falava muito com a minha obachan, porque ela entendia bem pouco português e eu não falo quase nada de japonês, mas, mesmo assim, sua ternura transcendia todas essas barreiras! a receita tá aí no link :-), lembra que eu comentei no seu post para que vc aguardasse? rs

    pat, desse em especial não me lembro! mas eu comia sempre as tradicionais, minha preferida era a rosquinha (rs)! ah, nossa, e por falar nisso, eu amava também as rosquinhas de leite da tostines e agora que me caiu a ficha de que não existem mais, né? snif…

    beijinhos, miki

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