o elefante no. 4

On June 7, 2013 by miki

o elefante da vez é inspirado no 3º ato, “sono”. é um ato que mistura real e imaginário de uma maneira vertiginosa. e é onde o belíssimo cenário de daniela se faz mais expressivo e, como disse a amiga de um amigo – também diretora de teatro – “adoro ver o seu trabalho porque seus cenários são como se fossem uma personagem a mais compondo o espetáculo.”

num misto de realidade e ficção, vida real e sonho, loucura e sanidade, a história vai se desenrolando, concatenando coisas tão díspares quanto o quotidiano numa cozinha, piscinas, corridas de cavalo, óperas, bailes, conversas sobre dentistas, desaparecimentos estranhos, mortes… sem dúvida, profundamente murakamesco!

e as músicas… a trilha é quase toda composta por música clássica, e a primeira que aparece – na cena da piscina – é a mesma que deborah colker usou em seu espetáculo “4×4”, no ato “vasos” e de quem um jornalista disse “ela [deborah] toca mozart domesticamente”, referindo-se ao fato de que ela mesma tocava um trecho da peça ao piano em cena. um amigo – fã incondicional de deborah – ficou muitíssimo bravo com a tal matéria: “o que será que ele quis dizer com ‘domesticamente’? quis dizer que ela tocava mal?” – risos. coisas de fã…

mas voltando ao elefante: é o ato mais comprido de todos e é bonito que seja ele quem divida o espetáculo “ao meio”. maria luisa interpreta visceralmente a personagem principal, com uma ânsia e uma entrega que é emocionante de se ver. a tormenta transparece em cada um de seus gestos, de seus olhares, de sua fala.

o relógio anda para trás. as cortinas dos quartos voluteiam vez ou outra. quem vai para cama, dorme em pé, num gesto tão simples e sintético mas, ao mesmo tempo, tão poético que só isso dá vontade de chorar de tão lindo que é.

a fotografia é um deleite para os olhos. a paleta de cores em azul e tons de preto. aqui e ali uns brilhos, como na cena do baile. ah! a cena do baile… tão fugaz mas dizendo tudo. a cena do baile penetrando a estipulada “vida real”.

e não estaremos todos nós – de uma maneira ou de outra, com mais ou menos gravidade – vivendo vidas outras, entrando e saindo de sonhos, de desejos projetados?

ela chora, em desespero. as luzes desfocadas em azuis e amarelos do cais se projetam sobre ela. entra a música. tudo converge para o preto absoluto. fecho os olhos e tudo se projeta em minha retina, como se tivesse sido ontem.

“Não entendi. Aliás, eram muitas as coisas que eu não entendia. A idade não me deixara mais esperto também. O caráter do ser humano pode se alterar com o passar dos anos, mas nunca a sua mediocridade, já disse certo autor russo. Os russos são às vezes muito perspicazes. Talvez pensem muito durante os longos invernos.”

Haruki Murakami in “Caçando Carneiros” | tradução de Leiko Gotoda


ilustração da autora

sono
da série “o desaparecimento do elefante”
em homenagem à peça de teatro “o desaparecimento do elefante” de monique gardenberg e michele matalon sobre obra de haruki murakami

grafite, aquarela e aguada de guache sobre canson branco 200g/m2
210 x 297 mm
02.mai.2013


7 Responses to “o elefante no. 4”

  • Fiquei encantando com o lance atemporal, pois parece anos 50, o figurino, o encantador cenário (sempre), mas o filho fala em tirar foto no Iphone, e sobre os equipamentos do consultório serem sempre hipermodernos… e ainda de quebra viajamos todos para Rússia, sem sono.

  • lindo o viés do seu olhar tb, marcelito!
    bom, no fim, é sempre arrebatador, não é mesmo?
    tô com saudade… rs!
    beijinho

  • Realmente o cenário é uma personagem que te convida, te chama, te encanta, busca seu olhar, se comunica o tempo todo com você…

    Amei esse ato!

    Amei essa personagem mundomiki que faz a diferença!
    E faz a gente amar ainda mais o teatro

    E amei a frase final sobre a mediocridade nossa de cada dia… fato

    Beijo

  • Marceloooo

    Bjo procê também! rsrs

  • dédé, lÿndo é poder fruir da arte da mana <3
    não consigo dizer qual ato amei, talvez pelo fato de ter amado todos!

    mas que ia ser bom ver junto com vc, isso seria!

    beijocas mil, m.

  • Miki que bacana esse espaço, para encontrar idéias, pensamentos, carinho e amigos. beijos

  • ah, marcelito <3
    quem dera fosse um lugar de mais fluxo de gentis rs :)
    mas não tô reclamando não, na verdade, tô félix que vcs queridos sempre venham aqui!

    beijocas mil,
    amor,
    m.

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