o elefante no. 3

On June 3, 2013 by miki

vai parecer que eu só dou desculpas… seja como for, na 6ª última, uma vez mais, não consegui cumprir o compromisso de postar o elefante da vez.

após duas semanas de molho, as coisas no studio – como era de se imaginar – acumularam-se e com um feriado pelo meio, vocês bem podem imaginar o que aconteceu…

o elefante de hoje é inspirado no segundo ato, “o comunicado do canguru”. trata-se de um monólogo interpretado magistralmente por kiko mascarenhas.

mas não é porque eu sou fã incondicional das meninas que eu vou me furtar a dizer o que se passou dentro de mim (porque cada vez mais tenho a certeza de que não posso ser infiel a mim mesma): da primeira vez em que vi a peça, tive dificuldade em gostar desse ato, muito embora ele tenha uma qualidade que me fisgou desde o começo: foi o primeiro a me emocionar até às lágrimas.

porém, a cada espetáculo assistido, mais e mais eu me encantava do canguru, do homem de areia, de cada gesto contido do kiko, do figurino que é quase uma extensão da sua personagem, da sua fala oscilante, do seu desejo, da sua angústia. especialmente da sua angústia e da sua coragem em levar adiante uma confissão de amor tão inusitada, doída e solitária. se eu fechar os olhos por um segundo, poderei ver as tais “vírgulas dançantes” girando ao seu redor numa imagem tão poética quanto surreal. e eu sorrirei porque – apesar de tudo – é exatamente o tipo de imagem que me encanta.

como bem disse o gumpa, monique modula maravilhosamente suas criações e essa característica faz com que mesmo um ato denso e difícil como o do canguru não se perca num redemoinho de tristeza que acabaria talvez num tedioso bocejo por parte do público. apesar de todo o clima angustiante, há falas e situaçãos tão hilárias que é impossível não cair na gargalhada, muito embora lá no fundo saibamos que é uma risada triste, posto que apenas esconde o medo do protagonista em não ser compreendido jamais.

até o último minuto não sabemos a identidade do interlocutor a quem ele se dirige e, quando o revela, o faz no coroamento de uma confissão desesperada. aquilo nos pega de surpresa e nos deixa atônitos e estupefatos, mas igualmente imbuídos de uma profunda compaixão por aquele sujeito que se abre e se dilacera frente ao objeto de sua afeição (e em última instância, frente a nós) com um despojamento, uma nudez e uma entrega tal que é um pouco como se ele fosse, de certa forma, uma parte de cada um de nós.

e então vem a música de stacey kent que dá as mãos entre os dois atos. e as lágrimas. e inevitavelmente, chovem palmas…

– O que eu busco, isto é, a força que eu busco, não se relaciona com vitórias ou derrotas. Tampouco procuro paredes capazes de rechaçar forças externas. O que eu busco é a força que me permita enfrentar a que vem de fora e resistir a ela. Um tipo de força que me permita suportar com serenidade a injustiça, a falta de sorte, a tristeza, o mal-entendido e a incompreensão.

Haruki Murakami in “Kafka à beira-mar” | tradução do japonês por Leiko Gotoda


ilustração da autora

carlos alberto e os cangurus
da série “o desaparecimento do elefante”
em homenagem à peça de teatro “o desaparecimento do elefante” de monique gardenberg e michele matalon sobre obra de haruki murakami

grafite e aquarela sobre canson branco 200g/m2
297 x 210 mm
23.abr.2013


5 Responses to “o elefante no. 3”

  • Lindo! …”entrega tal que é um pouco como se ele fosse, de certa forma, uma parte de cada um de nós” isso mesmo.

  • viva o kiko, marcelito <3
    bjbj

  • = )

  • Nesse dia atípico de ontem, com a tal da quinta manifestação saopaulina, onde todos nós tivemos uma batidinha a mais no peito, levei prá cama essa agitação, gostosa, com as mudanças que espero aconteçam de verdade, embora coloque, e ao mesmo tempo não coloque mta expectativa, acabei por acordar cedo, e fui chegar emails…

    Vi, li, amei… Tão bom ter calma prá apreciar sua arte em cima das artes das duas meninas quase twins, uma delas minha twin amada Nique.

    Obrigado, Miki!

  • oi, dédé <3

    e tão bom te ver aqui e te ter aquy!
    que bom que vc gostou, foi tão gostoso escrever, preparar, burilar o texto aqui e ali antes de finalmente soltar ele no mundo.

    e, sim! que possamos todos caminhar e fazer a nossa parte para um mundo melhor né?

    beijos mil
    amor,
    m.

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