o artista e o não-caminho que é caminho

On July 6, 2013 by miki

faz 15 dias que eu não atino em sobre o que escrever por aqui.

às vezes acontece assim, parece que as letras todas se esvaem de dentro de mim. ou as ideias. é mais fácil um pouco quando se tem um tema. um ponto de partida já é alguma coisa. foi assim até a quinzena passada, porque eu tinha me proposto a escrever sobre o elefante. mas quando o elefante se findou, nada mais me ocorria. refraseio: várias coisas me ocorriam, mas nada assim que me parecesse interessante o suficiente para que eu me animasse a discorrer à respeito. porque este espaço, para mim, é um lugar para reflexão, para partilhamento.

tenho pensado muito em meu trabalho e em minha vontade com esse trabalho. o que eu quero com a minha arte. em termos de o que significa ser artista para mim. de mim para comigo, no caso. digo dessa maneira na tentativa de clarificar o máximo possível. matisse, por exemplo, definitivamente é artista. mas isso não significa que para eu ser artista, eu deva ser como ele, seguir seus passos ou mesmo seus ideiais. é mais ou menos nesse sentido, se é que isso ficou de alguma maneira inteligível.

claro que há um lado prático que não me deixa fechar a preocupação na caixa e deixar ela por lá: eu gostaria, de alguma maneira, de poder sobreviver com o meu trabalho. mas ainda não consegui entender lá dentro de mim como isso poderia se dar e até onde eu poderia ir. o que quero dizer é que eu não estaria disposta a qualquer coisa para isso.

isso significa que eu almejo obter o mínimo necessário para viver a vida, mas que estou disposta a abrir mão de fama, sucesso e riqueza se isso implicar que eu precise fazer arte de uma maneira diferente da que eu acho que ela deva ser “de mim para comigo”. um pouco confuso, né?

vou tentar decupar: minhas aspirações não passam necessariamente pelo “ficar mega rica e famosa”. não. elas moram mais no “trazer para os olhos do mundo algo que está lá dentro de mim e que nem é tão claro assim, até mesmo para mim”. faz pouco tempo, eu tinha um objetivo muito claro em relação a essa caminhada que faço agora que “saí do armário enquanto artista”: comecei a pintar uma série provisoriamente apelidada de “criaturas do mundomiki” e eu queria fazer dela uma exposição em algum local genuinamente de arte. mas agora, até isso ruiu. eu não sei mais. continuo trabalhando na série – a minha primeira em tela – mas ando continuamente me questionando para tentar entender o quê exatamente eu quero para mim enquanto artista. ou por que subitamente eu “desisti” da ideia da exposição em uma galeria.

é como tatear no escuro e eu já me senti assim antes. com o tempo e o aprendizado que vêm dos inevitáveis tombos que levamos na vida, creio que consegui dominar um tico todas as emoções e sentimentos que envolvem esse processo. não vou dizer que estou tranquila, com a mente e o coração serenos. com a certeza de que tudo se encaminhará bem e virá no momento em que estiver maduro para vir. eu tenho ansiedade. muita. mas tenho procurado trabalhar a quietude e a interiorização para poder ouvir – verdadeiramente ouvir – as minhas necessidades mais verdadeiras e profundas. aquelas que eu preciso trilhar e ganhar como indivíduo, sem estar contaminada pela necessidade de aceitação alheia, de pertencimento a este ou àquele grupo.

o muito que eu vivi e sofri na primeira década e meia de vida, forjou-me como uma menina adorável que sempre fez de tudo para agradar aos outros, satisfazer à vontade alheia e para, no final das contas, pertencer e nunca mais ter que passar por uma situação de rejeição (uma coisa assim meio scarlett o’hara*). em algum lugar recôndito dentro de mim, eu imaginei que agindo dessa maneira tudo sairia bem, mas não foi bem assim que aconteceu. demorou um bocado de tempo e “muro chapiscado” até que eu conseguisse olhar através de mim e percebesse o que é que eu tinha criado para mim mesma. mas enfim despertei e isso foi bom, por mais que a realidade possa ser dura, dolorosa e nada fácil de encarar.

eu não sou mais (ou pelo menos estou me esforçando para não ser mais) a menina adorável de outrora. e eu não estou mais agradando aos outros só para não ser rejeitada. cada vez que sou rejeitada de novo, parece que um buraco da fundura daquele em que alice (a dos país das maravilhas) pulou se abre dentro de mim e eu acho que não vou suportar. mas depois passa. sempre passa.

gostaria de escrever tudo isso de uma forma mais leve e otimista. mas não é assim que está sendo. estou me esforçando para que não seja pesado, mas são muitos esforços de mudança de coisas arraigadas por mais de 40 anos dentro de mim.

não escrevo isso para que soe como desculpa nem tampouco para que se compadeçam de mim. escrevo, em primeiro lugar, porque escrever ajuda a clarificar as coisas dentro da minha cabeça e porque, de alguma maneira, tenho esperanças de que isso possa alcançar outras pessoas que também possam estar angustiadas vivendo situações parecidas com a minha e, quem sabe, consigam encontrar no gregário, algum tipo de reconfortamento.

talvez, apenas talvez, isso tudo seja o vislumbre de um possível caminho para a expressão da minha arte. ou a minha arte possa ser o meu norte a me guiar por esse caminho sem volta que eu escolhi trilhar.


* refiro-me à personagem de vivian leigh em “o vento levou” ao jurar que fará qualquer coisa, “mentir, roubar, matar… mas jamais passará fome novamente”. naquele precioso instante, toda a sua força e rebeldia se unem dentro dela em uma missão de vida, de sobrevivência, não apenas no sentido de estar viva, mas também e especialmente de sua dignidade, ainda que para isso ela viesse a lançar mão de meios escusos. claro que eu não quero lançar mão de meios escusos, mas, soterrar o meu eu verdadeiro vivendo à mercê da vontade alheia não seria um meio terrivelmente escuso contra mim mesma?


12 Responses to “o artista e o não-caminho que é caminho”

  • Entendo. Também vivo esse tipo de ansiedade em relação às minhas escolhas, o futuro já bateu na porta e a sensação de que fui atropelada por ele é terrível. Acho que devemos agir como os praticantes das artes japonesas, fazer aquilo que nos propomos como uma forma de disciplinar a mente e atingir algum grau de excelência em nosso trabalho sabendo que isso está bem distante. Não esperar atingir um fim. Serenidade. Beijos.

  • “saí do armário enquanto artista” … Tive uma idéia (quero falar com você!) beijo

  • querida karen, adoro dividir a vida com vc!
    é alentador saber que não estamos sós no mundo.
    além de tudo, gostei muitíssimo do que vc escreveu sobre os praticantes das artes japonesas, cada vez mais me convenço de que o caminho é por aí mesmo. de uma certa forma, acho que estou fazendo isso, mas não tinha essa consciência tão clara. me parece um ótimo meio de seguir em frente! não sei se funciona para todo mundo, mas para mim no momento que estou vivendo, é um ideal muito bom de se ter!

    espero que esteja tudo bem por aí e que vc esteja curtindo as suas aulas :). o mundo em que vivemos hoje não é muito generoso no que diz respeito a ter alento sobre as nossas escolhas, já que, teoricamente, “podemos escolher qualquer coisa”, mas, escolher uma coisa significa, necessariamente, abandonar tantas outras e isso, muitas vezes, nos parece insuportável…

    mas se entendemos isso e tentamos perscrutar verdadeiramente o nosso interior, acho que é possível conseguir viver com a mente um pouco mais serena!

    um bj florido em vc
    e desejos de um feriado maravilhoso,
    amor, m.

  • oba, marcelito :)
    quero saber hehe
    curioooosa agora
    bjbj

  • Ai, Miki! Eu te entendo demais. São muitas amarras e na maior parte das vezes a gente nem sabe como surgiram, de onde vieram e para que servem (ou a que nos amarram). Beijo carinhoso.

  • Luv, às vezes acho que sou um eterno cachorro-morde-o-rabo. Escolho, desescolho, faço, arrependo, erro, erro outra vez, recomeço, reconheço o erro e o repito mesmo assim. Gostei do que a moça Karen escreveu ai: ” Não esperar atingir um fim.” – achei perfeito.Queria te escrever algo que te desse um tico de conforto, mas também me sumiram as palavras. Acho que estes questionamentos devem ser coisa da idade. Te luv, seu irmão errante

  • oi, anoca!

    sempre bom poder trocar ideias com vc e saber que há muitas coisas parecidas nesse caminho que decidimos trilhar!

    como disse a karen, acho que o fundamental é procurar ter serenidade. com serenidade, sempre encontramos as respostas e os caminhos. ainda que demore mais do que gostaríamos. ainda que a gente erre. e, no fim, quem sabe, possamos olhar as antigas amarras e entender que elas estavam ali para fazer de nós alguém melhor :). pelo menos, eu gosto de pensar assim.

    um bj carinhoso,
    m.

  • oi, luv <3!

    conforto é saber que vc está sempre aí do outro lado, é saber que sempre me ouve, verdadeiramente me ouve. o mais, é bônus!

    e fico feliz em saber que vc faz, desfaz, erra, prossegue, arrepende... mas nunca desiste de seguir em frente, mesmo que as perspectivas possam não parecer assim tão animadoras!

    no fim, acho que viver é isso. viver é assumir total responsabilidade pelo que somos, pelo que fazemos, pelas nossas ações. e aceitar, com compaixão, que somos apenas humanos esforçando-nos do fundo do nosso coração para fazer o nosso melhor :)

    tb sou kinen, cachorro-morde-o-rabo <3
    por isso que somos xêmeos!

    teluv,
    m.

  • Dores do crescimento, Mi.
    Vc tá numa jornada linda, de aprendizado, de coragem, de encontros.
    Acredito mto em vc e no seu trabalho.
    Bjs carinhosos!

  • oi, dindi!
    merci :)
    vc sabe que a sua amizade e a sua torcida são muito, muito importantes pra mim, né?

    igualmente, tb acho que vc está numa jornada linda! que bom que podemos estar juntas e próximas nessa parte do caminho, não é mesmo ;)?

    :-***

  • Miki,
    Você conseguiu colocar a situação que tantas outras pessoas passam de um jeito tão vivo! Artistas ou não artistas! São as coisas que ódios passam cedo ou tarde, eu acho. ;)
    E sua coragem de ir atrás do que você acredita, vai te trazer a recompensa merecida! :)

    Beijos, Adorável menina!

  • oi, lu!

    merci pelo apoio incondicional!

    sim, acho que vc tem razão, cedo ou tarde, todos passamos por isso ou por algo parecido com isso né?

    e eu descobri, ou talvez melhor seja dizer que finalmente entendi, que não adianta eu tentar ficar fugindo dessa situação ou encontrando alguém ou alguma coisa que me sirva de muleta ou desculpa.

    porque cedo ou tarde, a situação voltará a se repetir e eu voltarei a sofrer se não encará-la de frente, assim como às minhas dificuldades e fraquezas, e tentar melhorar dessas mesmas dificuldades e fraquezas…

    talvez isso seja viver de verdade :)
    porque no final do caminho, olharei para trás e me orgulharei de ter crescido, de estar indo embora ao menos um tico melhor do que quando aqui cheguei :)

    bjs de primavera em vc, minha amiga e pupila tão lÿnda!
    amor, m.

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