sobre a compaixão

eu não podia imaginar que chegaria até onde cheguei há 8 anos atrás, quando deixei para trás uma vida de suposta segurança financeira para me aventurar no mundo desconhecido do “ser artista em tempo integral”. a bem da verdade, eu nem sabia que estava trilhando um caminho artístico, coisa que só vim a me dar conta alguns anos depois.

quando eu digo chegar até onde cheguei, eu não me refiro apenas ao fato de me descobrir artista e de tudo o que eu consegui produzir e botar na rua até agora. isso também, claro, mas falo de algo muito mais impalpável, falo de auto-conhecimento, de coragem para olhar para dentro de si mesma, perceber e admitir inseguranças, falhas, defeitos, fraquezas e dificuldades e tentar melhorar, por pouco que seja. com muito orgulho, eu olho para mim hoje e me vejo mais humana, mais consciente, trabalhando para ser cada vez menos egoísta, menos apegada e quiçá, dando minha contribuição (por pequena que seja) para construir um mundo melhor.

nesse meu caminho, três coisas têm me ajudado muito: estudar o budismo, especialmente o tibetano, fazer yoga e meditar. a yoga e a meditação me ajudam muito com a minha ansiedade. claro que não é um remédio milagroso e de efeito rápido, mas elas me ajudam a encontrar o centro nos momentos de angústia e agitação. são passinhos de bebê e nem sempre funciona 100%, especialmente quando estou no pico da ansiedade, mas já é alguma coisa. sinto como fico diferente e mais “dona de mim” quando pratico com regularidade.

já os estudos sobre o budismo têm aberto caminhos e possibilidades para o meu coração. tenho me sentido um pouco mais tranquila com relação ao sentido da vida e às minhas dificuldades. nele, tenho encontrado nuances de respostas e convergências de sentimentos, práticas e crenças. às vezes sinto um pouco como se, de alguma maneira, um fino véu estivesse cobrindo um conhecimento imemorial e, aos poucos, esse conhecimento estivesse sendo despertado.

tenho pensado muito à respeito da compaixão e de como esse sentimento-atitude é bonito e generoso. também tenho me esforçado para praticá-lo e para incorporá-lo no meu dia-a-dia, mas isso requer disciplina, comprometimento, verdade e presentificação.

ontem, na minha última checagem à caixa postal, recebi um email que me deixou ligeiramente danada. você sabe, o ego sempre pula na frente e ao invés de você olhar para a situação de fora, você primeiro pensa em você, nos seus sentimentos possivelmente feridos, nos seus esforços e fica com raiva. claro que foi o que eu fiz. e claro que essa foi precisamente a razão pela qual eu fiquei danada. tenho o péssimo hábito de ficar remoendo as coisas e, numa situação assim, sem eu nem me dar conta, já vou indo para esse caminho que só me faz mal. porém, parece que meus esforços contínuos estão sendo recompensados, pois, nem sei bem como, eu consegui sair desse ciclo e pensar diferente. eu pensei: “como é que eu poderia expressar o que eu quero expressar (ou seja, falar e não calar e engolir o sapo, que é como eu tenho feito durante esses últimos 40 anos), mas com compaixão (ou seja, dizer o que me magoa mas desejando o melhor também para o outro e não apenas uma acusação irada ou vingativa?)”

eu não tinha nada muito claro na minha cabeça, mas hoje pela manhã, quando me dediquei a escrever uma resposta expondo a minha mágoa mas abraçando o outro com compaixão, as palavras e as ideias foram pouco a pouco concatenando e clarificando. mas eu tive que estar presente e igualmente eu tive que ser verdadeira, comprometida e disciplinada. presente de toda alma e coração, longe de distrações sedutoras e fugazes; verdadeira comigo e com o outro; comprometida com a vontade de criar pontes e não muros e disciplinada para não permitir que o procrastinador me afastasse daquela tarefa nada agradável, tampouco fácil.

como diz sogyal rinpoche, autor d’o livro tibetano da vida e da morte: “a coisa mais essencial na vida é estabelecer uma comunicação corajosa e sincera com os outros.”

eu não sei se fui bem-sucedida na minha tentativa. e quis sentar aqui para escrever, mesmo sendo tarde da noite, porque não queria que esse post ficasse contaminado com a resposta. resposta essa que pode nunca vir. ou que pode ser muito dura de ser lida. mesmo sabendo disso, meu sol interior brilha contente porque eu dei um micro-passo na direção de trabalhar as minhas dificuldades e de abraçar o mundo com compaixão. gosto de pensar que é assim que se começa :).

que cada um que passe por aqui possa igualmente olhar para dentro de si sem medo de descobrir as maravilhas e os dragões que (co-)existem dentro de si e que fazem com que sejamos especiais e únicos em todo o universo <3. que esse mergulho possa ser profícuo e carregado de sonhos tão antigos e preciosos! depois virá o medo, mas valerá a pena, pode acreditar! um abraço longo e carinhoso de lavanda de olhos fechados amor, m.

10 Responses to “sobre a compaixão

  • Linda! Que depoimento…
    Você está falando de auto-conhecimento e de mudança, coisas que assustam.
    É preciso ter coragem pra começar e coragem pra ir adiante. E pra aprender com as experiências, quando algo sair diferente do esperado.
    Que este novo caminho seja rico e prazeroso!
    Bjs.

  • oi, querida amiga!

    merci pelo apoio incondicional e por acompanhar as minhas peripécias por aqui.

    estou tentando mudar a parte sofredora da história e esse é outro aprendizado.

    “devagar se vai ao longe”, não é assim que dizem? ;)

    bjs de amor,
    m.

  • Miki, minha amiga, que coisa linda! Não é fácil falar e expor nossas dores e fantasmas, mas é essencial!!! Estou num momento muito delicado, de grandes mudanças… Vc é sempre uma inspiração!!! Beijo enorme butonicos!!

  • Querida, vc é muito corajosa. Te admiro muito por isso. Eu ja sou alguem muitas vezes mais covarde. O receio me faz parar.esta tua jornada é inspiradora.muitas coisas me fizeram pensar em mim mesma.x

  • oi, nilson!

    que bom saber e poder compartilhar pensamentos e sentimentos com vc!
    espero q a sua jornada seja rhyca e profícua e lhe traga muita luz, serenidade e verdade interior!

    bjs kazuôhnicos <3

  • querida tina,

    eu gostaria de ter toda essa coragem que vc menciona, rs. têm coisas que para outras pessoas parece tão trivial e para mim é um cavalo de batalha…
    não se sinta assim, cada um tem suas próprias virtudes e dificuldades. eu acredito que se cada um conseguir trabalhar seu eu interior para fazer de si alguém melhor (mas melhor no sentido espiritual e não apenas no sentindo de enriquecer materialmente), estará contribuindo igualmente para que o mundo seja um lugar melhor. e você quer prova de amor maior do que essa? avante, minha querida, vc é tão talentosa e querida por todos!

    um bj no coração,
    amor,
    m.

  • Miki
    Eu me vejo no seu texto, essa luta diária de nós com nossos pensamentos. Um dia perdemos, passa um tempinho … “não precisava ser assim”, poderia ter agido de outra forma; em um outro ganhamos…que sensação boa! Mas só quem está na emoção do momento sabe o quanto é difícil, uma batalha. Sim, penso no budismo…”tudo é impermanente, isso também vai passar”
    Beijos e força sempre!

  • querida adriana!

    sempre bom saber que vc passa por aqui e igualmente bom dividir pensamentos e ações com vc :)

    espero que esteja tudo bem por aí!

    desejos de uma meia semana iluminada e algodoada,
    amor,
    m.

  • ai, Miki. você e suas lições de vida. te adoro

  • querida ana,

    eu fico feliz em sempre ouvir de vc. saiba q eu tb te admiro muito :)!

    na verdade, esse foi apenas um dos momentos em que eu consegui deixar o meu ego um pouco guardado dentro do saco e exercitar o outro lado. mas não pense vc que é sempre assim, rs. infelizmente, ocorre com muito mais frequencia o contrário do que isso… mas acredito que esse é o caminho, então, mesmo falhando consecutivas vezes e voltando aos velhos e arraigados hábitos, sigo tentando esse novo caminho. e cada pequena vitória é uma alegria enorme e a esperança de que pode ser diferente e de que estou no caminho certo!

    fico imensamente feliz se esse compartilhamento te tocou ou te inspirou de alguma maneira!

    vamos juntas, amiga!
    bjs de beija-flor,
    m.

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