o último dos moicaninhos

você, o mala que o lama abençoou e que está imantado por tantos pujas feitos e a primeira estrofe do prajnaparamita, em código morse, pra te acompanhar no bardo da morte e no bardo do vir-a-ser

[10:27] aos 30 dias de agosto de 2021, você, o último dos moicaninhos, o último da dinastia de 6 yorks muito amados partiu. uma dinastia que se iniciou no seio de uma família de 8 membros e terminou só você e eu. os outros 5 diletos membros do tipo ‘bolicas-de-pelo’ se foram um a um, cada um a seu tempo e a seu modo. a família permaneceu com 3 membros. um deles escolheu um caminho diferente. restamos eu e você.

o final, meu filho cauda-de-pavão mais bela e gloriosa, foi comprido e sua cabecinha foi indo embora aos poucos e causando em ti as marcas da enfermidade. foi doído te ver tantas vezes entrando em crise a se debater e eu pensava: “se sua cabecinha está longe, será que você sofre?” eu te ninava no colo, cantando mantras em seu ouvido, limpava a espuma que insistia em sair da tua boca, fazia bolsa de água quente pra te aquecer. mas também houve momentos em que eu, exausta, desejei simplesmente que tudo acabasse logo. por mais culpa que esse pensamento me causasse na sequência. mas, como diria renato russo: “não sou perfeita.”

mas você sempre foi forte. guerreirinho. bravio. lutador. e por que não dizer? encardido! você se agarrava à vÿda, você sempre se agarrou em cada momento dessa existência terráquea. em pelo menos três ou quatro crises, eu pensei realmente que você estava indo. mas eu sempre me pegava em surpresa ao ver que você parecia voltar do mundo dos mortos e sair caminhando [ainda que meio troncho] como se você não tivesse passado por fortes emoções que te levaram ao limiar entre a vÿda e a morte. no outro dia… me lembrei da dra. alê silvério quando foi em casa limpar o tartar terrível da sua boquinha [como uma boquinha tão pequena consegue formar um tartar daquele tamanho?!]. era um procedimento menos invasivo, já que ela é uma vet que trabalha com métodos alternativos e mais naturais. então, ela nos explicou [pá mim e pá você] que ela dava o pikopiko da anestesia num ponto no meio da sua testa que potencializava o efeito anestésico. que, no máximo, 1/3 da dose em um procedimento normal era necessário. mas ela ficou impressionada em como você – tão peso pena, tão piquiquiquico – não se entregava. é… pensando bem… você sempre foi assim.

por isso… tava difícil de você ir. por mais que as crises fossem te debilitando a cada vez, por mais que o seu corpinho já desse mostras de estar indo, por mais que você já não conseguisse fazer quase nada, por mais que eu conversasse com você tendo dado a ti a minha “permissão pra você partir”… a cada vez, você resistia. então, na madrugada da segunda, você começou a ficar inquieto num crescente que evoluiu pra um ganido persistente, doído e com contorções do seu pobre corpinho. uma vez mais eu achay que você estava indo. primeiro te aninhei colado ao meu corpo na cama e comecei a recitar o mantra do buda da medicina pra você. respirando e procurando não entrar em pânico pra poder tentar te ajudar nesse momento difícil. a crise se estendia. pegay você no colo, embrulhadinho, e fiquei andando e mantrando. 10, 15, 18, 20, 25 minutos… você não ia e nem parava de ganir. só coloquei um sobretudo em cima do pijama e saí desarvorada e descabelada com você até o hospital 24h.

obviamente, a indicação era deixar tu internado. mas desde sempre, desde antes, talvez desde uma encadernação passada eu já tinha pra mim que eu não queria que seus momentos finais fossem em um lugar desconhecido, sem nada nem ninguém familiar [como não deveria ser para nenhum ser vivo desse mundo, né?], então eu disse que não. assinei um termo que não. você foi medicado, sedado, sorado, furado e caiu em uma letargia pesada. então eu perguntei pra vet phöpha de plantão: “… … … na sua opinião… qual é a linha de corte pra eutanasiar?” “da maneira como ele está… seria… agora… mas como você não quer deixar internado, provavelmente ele vai morrer na madrugada, em casa. não se preocupe porque ele não vai sentir dor nem sofrer porque está sedado.”

mas você, né filio? rsrs. você não largava o osso nunca na sua vÿda, por que é que justamente agora, nesse momento crucial, você iria largar? como diz o mestre tibetano sogyal rinpoche: “vamos morrer com a mente que tivemos e cultivamos em vÿda”. te trouxe pra casa, te deixei aquecido de amor e de calor na sua caixinha com seus cobertorzinhos, bolsa de água quente em cima da minha cama. atravessei a madrugada fazendo recitações de mantra. recitava, olhava pra você, chorava. meditei quase sem conseguir. devo ter cochilado em algum momento. aos poucos, sua respiração foi normalizando. milagrosamente, uma vez mais, você tornava à vÿda. mas eu… eu já não podia mais, eu não suportava mais. me aconselhei com a lívia, a sua [a nossa!] acupunturista do coração. ela, tão maravilhosa, tão humana, tão lúcida, tão segura no cerne do caminho que escolheu pra vida dela me falou palavras que me tocaram, me orientaram, me trouxeram conforto, segurança, colo, acolhimento, tudo isso junto em forma de voz.

a decisão difícil começava cada vez mais a tomar forma. então foi a vez da ivelize, a vet alopata que há longo tempo cuida e conhece vocês. o coração veio na frente e a minimização do sofrimento é a guia dela. uma luz: “miki, se você decidir, eu faço em casa”. palavras que me trouxeram um conforto infinito.

o dia foi caminhando. paulo veio, o moço que tava arrumando a nossa parede com infiltração. eu não queria ver ninguém, mas paulo foi uma estrelinha no nosso dia. brincou comigo, me fez rir. não sabia o que estava acontecendo. ofereci bolo, proseei, naquele dia ele aceitou a oferta para aquecer sua comida no microondas. “servida?” a simplicidade, a perfeição da humildade, a generosidade das pessoas mais simples sempre me comove. “bom apetite, paulo!” “vou aquecer no prato, você senta aqui na mesa e come tranquilo!” “não, filha, já tô acostumado. tenho que correr.” “então vou colocar aquy um pedaço de bolo pra você levar.” “não filha, de coração, eu não quero. muito obrigado. eu tô de dieta. eu só faço duas refeições por dia mesmo.” “mas, paulo, você é tão maguinho! dieta? vai sumir, hein! então… posso oferecer um suco de laranja?” “mas a senhora ainda vai fazer?” “não, paulo, tá pronto.” “então tudo bem.” paulo veio. paulo me fez sorrir. paulo foi.

você começou a se agitar. lambia o ar e ficava mordendo a borda da sua caixinha. tabatha, a sua mais nova amiga vet canábica disse que queria vir te ver, mas que só conseguia no final da tarde. na minha confusão, acho que não disse a ela o que a vet do hospital tinha me dito a respeito da sua terminalidade iminente. nada te acalmava: óleo de cannabis, papinha de arroz com salsão, água de coco… e eu, a rainha da hecatombe pré-fabricada na minha mente imaginosa e muito suscetível à me enredar terrivelmente nas redes da preocupação já estava morta de pavor de ter que te levar de novo pro hospital e a epopeia [sem falar no custo astronômico] toda. “tabatha… ele não acalma…” “miki, não vou conseguir ir aí mais cedo, se você achar que o quadro dele tá piorando, melior levar na clínica de novo…”

[corte]

“ivelize… se eu decidir fazer o procedimento, você teria agenda?” meu medo agora era você ter outra crise e não dar tempo de a ivelize chegar. “miki, passa a gabapentina na orelha. dá mais óleo de cannabis. pra gente tentar acalmar esse cérebro. eu só consigo ir às 18:00 porque a anestesista que vai comigo não consegue antes. eu sou ruim de pegar veia, ele tá com a pressão baixa…” “tá bom, ivelize. tá bom.” você acalmou – graças aos deuses e aos budas [ou talvez graças às drogas e aos mantras e, quem sabe, ao meu amor e ao meu pedido silencioso de você poder partir em casa, ao meu lado] – e voltou a dormir e a ressonar e a roncar prodigiosamente. velei você. ninei você. o buda da medicina nos acompanhou e nos velou nessa tarde. teve uma hora em que eu, exausta, dormi cara a cara com você. “pedi” pro tenzin wangyal velar nosso sono com a recitação de sua “guirlanda preciosa: a oração do estado intermediário”. acordei. refiz meus votos. pedi licença pro rinpoche e voltei pro buda da medicina: “prece de abertura – tomo refúgio no Guru, o buda da medicina, em quem as três joias se unem e incito a Bodicita para o benefício dos seres”. a cada recitação do mantra, um sopro no centro das mãos em concha e um espalhar de energia por sobre o seu corpinho frágil, quase inerte. em meio a tudo, intermitente e misturado: choro, riso, pranto profundo, beijo, miasmas de quem está partindo, sentimento de gratidão infinita por podermos ter compartilhado a vÿda. muitos lenços. muito amor. incenso. vela. o som da morte, bela, solene, importante, pacífica, convidada.

a campainha toca. ivelize chega. isabella chega. me transporto imediatamente para a cena de jeffrey o’connor em “os 7 afluentes do rio ota”, peça maravilhosamente encantada a que assisti mais de 10 vezes: um suicídio assistido. a peça que eu tanto amo, as pessoas por trás da peça que eu tanto amo e eu e você, kéké, nossas vÿdas e nossas histórias se entrelaçando indelevelmente, inevitavelmente, magicamente, amorosamente. ivelize e isabella são a personagem da lorena. jeffrey [a personagem do caco] é você. eu posso ser jana chapek [a personagem da helena ignez]. porque me sinto serena como jana e não atravessadamente desesperada pela emoção da perda como a ada, a personagem da giulia.

nós [as vets-fadas e eu] conversamos. eu choro. rimos. faço mantras do buda da medicina enquanto os líquidos são injetados para dentro de você. você gane um tiquinho. ivelize te acalma. logo passa. morfina. pra garantir que você não vai sentir dor. anestésico. devagarzinho. estetoscópio. pronto… você foi. uns minutos depois, o potássio, just in case.

merci, fadinhas da passagem.

arrumo um altarzinho pra ti. lágrimas, soluços, sorrisos. gratidão. lembranças, saudades. é quase 19:00. vou fazer uma prática de corpo presente com você e com o lama. puja de prajnaparamita e puja do buda da medicina. ele não sabe. a sanga não sabe. só quem sabe somos eu e você: na minha imaginação, o lama está derramando as suas bênçãos por sobre o seu corpinho de estrelas que agora está voando. liberto. que – caso você não consiga realizar a natureza livre da sua mente, meu phöphuco – você possa renascer numa vÿda humana preciosa e alcance o darma em tenra idade.

tiamu. merci por me ensinar tudo e tanto.

todo meu amor,

m.

ps. um agradecimento especial a todos que fizeram parte dessa história, pertinho ou longe, agora ou faz tempo: gumpa, cris catropa, carol banhista, lívia roberta, tabatha, ivelize, isabella, alê silvério, dindo luv flavito, dindi, betti, prof david schumaker, pat kalil estrelinha, dra. patricia de floripa e a todos que amaram ou estiveram próximos do kerokero – kéké, kekezinho, guégué, kekeilson, pupikow e mais um milhão de outros apelidos que eu dei pra ele – em algum momento da linda e profícua e abençoada vidÿdinha dele. tu foi um mestre pra mim. emahö!

7 Responses to “o último dos moicaninhos

  • Emocionante seu relato!
    Um amor puro . Que seu coração fique em paz minha amiga. ❤️
    Keké terá um renascimento auspicioso!! Mérito dele, mérito seu.

  • Emocionada , amiga Miki. Te amo

  • Kéké terá um renascimento auspicioso pela conexão de amor que tem com você Miki a mamãe dele…
    Momentos dolorosos de luto que aos poucos vai passando, tudo no seu tempo querida…um beijo e um abraço bem apertado.

  • Minha rainha da hecatombe pré-fabricada favorita, todo o amor do mundo para você, merecedora que é por proporcionar uma passagem tão suave e digna para Kéké. Que texto lindo! Que seleção de imagens! Que homenagem! Precisando de colinho, estou aqui para você.

  • Meu amor! Que lindo o seu relato e a luta dos dois! Agora não consigo mais parar de chorar! Vai ser difícil não tê-lo mais no seu banho de ofurô. Amo vcs pra sempre!!! Conte comigo sempre!❤️❤️❤️

  • Quanta garra, amor e energia depositados nesse momento único, que todos sabemos que iremos enfrentar. Mimi

  • Miki amada, ele estará com as estrelas, resplandecendo luz, graças às suas preces
    Ele estará nas minhas orações no Bardo, pedirei à Tara por ele todas as noites.
    Te amo valorosa amiga.
    Que meu hálito de conforto, meu abraço e meu amor cheguem até você nesse momento tão doído ✨

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