kari-furawa

fico desconcertada como, às vezes, murakami fala tão diretamente a mim. essa passagem de sumirê, em “minha querida sputinik” é quase uma cópia-carbono de mim mesma. e especialmente na alvorada de hoje, ela me falou ainda mais agudamente:

“exceto algumas cartas, faz muito tempo que não escrevo nada para mim mesma, e não estou muito segura de conseguir me expressar da maneira como gostaria. não que eu já tenha me sentido segura antes. se bem que, de certa forma, sempre me senti motivada a escrever.

por quê? é simples, mesmo. para que eu pense sobre alguma coisa, tenho de, antes, anotá-la.

tem sido assim desde que sou pequena. quando não entendia alguma coisa, juntava as palavras espalhadas aos meus pés e as alinhava em frases. se isso não ajudasse, espalhava-as de novo, as rearrumava em uma ordem diferente. repetia isso várias vezes e tornava-me capaz de pensar sobre ela como a maioria das pessoas. escrever nunca foi difícil para mim. outras crianças juntavam pedras bonitas ou sementes de carvalho, e eu escrevia. tão naturalmente quanto respirava, escrevinhava uma frase atrás da outra. e pensava.

sem dúvida vocês acham que é um processo demorado para chegar a uma conclusão, visto que, toda vez que eu pensava em alguma coisa, tinha de passar por todas aquelas etapas. ou talvez não achem isso. mas, na prática real, levava tempo. de tal modo que, quando entrei para a escola primária, as pessoas acharam que eu era retardada. eu não conseguia acompanhar as outras crianças.

quando terminei o fundamental, a sensação de alienação que isso provocava tinha diminuído consideravelmente. eu descobrira uma maneira de acompanhar o ritmo do mundo à minha volta. mesmo assim, até deixar a faculdade e romper toda e qualquer relação com o mundo oficial, essa lacuna existiu dentro de mim – como uma cobra silenciosa na relva.

o meu tema provisório: diariamente, costumo escrever para entender quem eu sou.

certo?
certíssimo!

escrevi uma quantidade incrível de páginas até hoje. quase diariamente. é como se eu estivesse em um pasto imenso, arrancando o capim sozinha, e o capim tornando a crescer quase tão rápido quanto consigo arrancá-lo. hoje, arranco aqui, amanhã, ali… quando completo uma volta no pasto, o capim do primeiro local está tão alto quanto no começo.”

in minha querida sputinik, de haruki murakami


* kari-furawa é couve-flor em japonês. não me pergunte porque eu pus esse nome nesse post. apenas surgiu em minha cabeça e eu segui os meus instintos.

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