eu e o medo do novo

eu e o sr. gumpa saímos em férias em outubro. foi por isso que tudo ficou silencioso por aqui. bem, mais ou menos por isso… é que depois das férias, eu caí doente e fiquei uns pares de dias de molho em casa.

viajar, no senso comum, é sinônimo de alegria e expectativa prazerosa. no meu caso, porém, percebo que quanto mais o tempo corre, é mais difícil deixar o meu mundo, a segurança do conhecido, a rotina. lembro que quando estava na faculdade, eu adorava viajar com a “turma”. não importava muito para onde, a diversão estava garantida só em saber que estaríamos juntos em um lugar diferente, livres de maiores responsabilidades, andando sob o sol, comendo o que aparecesse pela frente, dormindo em qualquer colchonete. a nós nos bastávamos e éramos plenos, contentes e cheios de alegria de viver.

não sei bem em que momento tudo isso mudou de figura e eu passei a não ver mais tanta graça assim em viajar. agora temos condições infinitamente melhores e – tendo trabalhado arduamente – se quisermos, está ao nosso alcance conhecer qualquer recanto deste “mundo mundo vasto mundo”, como diria drummond. mas, paradoxalmente, eu me sinto cada vez com menos vontade disso. tenho a plena consciência de como isso pode soar incompreensível, absurdo ou até mesmo blasé para uma grande parte das pessoas – aquelas que têm nas viagens um enorme prazer – mas essa sou eu e, por razões várias, eu estaria mais feliz levando a minha vida cotidiana, pintando meus seres mágicos, amassando os meus cachorros e inserida dentro de um lugar onde tudo é seguro e conhecido.

porém-todavia-contudo-entretanto-no-entanto, people change e é isso que é bonito na vida. não vou dizer que me transformei em uma viajante inveterada, mas a viagem que fizemos foi realmente especial e, por isso, vai povoar as minhas mais felizes memórias para sempre. e se assim foi, grande parte do mérito é do sr. gumpa que abdicou de sua “gana febril de explorador” para se adaptar ao meu ritmo quieto, tímido, pequeno, assustado e assim me proporcionar uma experiência diferente em lugares outros tão diversos do meu-tão-seguro-e-familiar-ninho. claro, também teve uma disposição interna minha em fazer dessa uma viagem diferente e muito embora um resfriado tenha nos pegado a ambos durante o percurso, entre mortos e feridos todos se salvaram.

a viagem foi também uma oportunidade para que eu pudesse me perceber mais atentamente. tenho me esforçado em trilhar esse caminho há algum tempo, mas algumas coisas ficam mais à flor-da-pele quando estamos fora do nosso ambiente. percebi e entendi coisas a que nunca tinha atinado em outras viagens, coisas essas que me ajudaram a compreender ainda mais a minha essência, os meus medos, as minhas fragilidades.

em algumas viagens anteriores, eu meio que tampava todos os meus desconfortos e medos dentro de uma caixa e a lacrava muito bem lacrada, engatava a primeira e ia. eu não me permitia discordar com veemência de nada que fosse realmente grande, eu me violentava tentando agradar ao outro incondicionalmente, eu sofria estoicamente em silêncio. e claro que, nessas circunstâncias, não há programa que possa dar certo! a conclusão – não precisa ser nenhum gênio para descobrir – é que eu acabava frustrada, esgotada e profundamente contrariada. e pior, não via que esse meu terrível comportamento fazia com que o outro também sofresse :(…

percebi também o quanto eu me anulo, me escondendo atrás de uma capa de “preocupação excessiva em estar incomodando”. claro, quando você é hóspede na casa de um amigo, nunca deve abusar da hospitalidade, mas eu acho que exagero um tanto no meu sentimento de “estar incomodando”. nossos anfitriões foram maravilhosos e amáveis e foi uma delícia poder estar com todos eles por algum tempo, ter dicas especiais sobre as cidades e partilhar de alguns momentos familiares. o problema mora em mim: me dei conta de que o meu pavor aterrorizante de ser rejeitada me faz ter essa atitude de preocupação excessiva (na vida em geral). no fim, eu mesma me torturo atemorizada por um medo que provavelmente só existe na minha cabeça. ou melhor, ele existe, mas nem de longe é esse bicho-papão que eu pinto com as cores mais terríveis. afe. paradoxalmente eu adoro receber visitas em casa, vai entender?

claro que não é a coisa mais agradável do mundo se alguém briga com você. ou se te rejeitam. ou se discordam de você. mas também não é um cavalo-de-batalha como parece ser para mim. eu sei que preciso fazer um fine tuning nesse aspecto das minhas emoções. eu sei que preciso tirar a lente de aumento e conseguir enxergar a coisa tal como ela é. eu sei que é só assim que eu vou conseguir viver mais leve, menos preocupada e deixando o meu pobre corpo em paz. porque é isso o que acontece: quando não consigo resolver algo, é o corpo quem sofre :(…

mas nem tudo foram espinhos nessas férias. estar em lugares totalmente diferentes, com pessoas diferentes, paisagens diferentes, comidas diferentes me encheu de uma vida secreta, silenciosa e cheia de novidades. e isso foi outra coisa que entendi: eu fico tão cansada quando viajo porque eu me alimento de tudo o que acontece ao meu redor: o colorido da roupa de alguém que passa ao meu lado, uma rua com casinhas singulares, o perfume de uma comida totalmente nova… tudo me alimenta, parece que eu quero sorver cada pedacinho dessa realidade tão diferente da minha. por isso, para mim, basta ficar sentada num café à beira da calçada ou no banco de um parque (de preferência com um caderno e pincéis na mão) olhando as pessoas passarem, olhando o movimento, olhando a paisagem… para me deixar completa e satisfeita. mais, às vezes, é demais. eu fiquei muito feliz em finalmente entender (e aceitar) por que é que o meu ritmo é tão leeento às vezes!

já sonho – mesmo que timidamente – com nossa próxima viagem (minha e do sr. gumpa <3). merci pour tout, monamú...

4 Responses to “eu e o medo do novo

  • Oi Miki – sua preocupação tem relação com as mudanças que estão acontecento. Pense positivo. Tudo vai ficar bem. Beijo grande – saudades. (lindo texto – como sempre)

  • marcelo querido, vc sempre presente!

    minha preocupação é um bichinho que vive em mim desde há muito. a busca da mudança – por não querer mais incorrer nos mesmos erros sempre – me fez olhar para dentro e entender a preocupação e suas raízes. agora é trabalhar como formiguinha, devagar e sempre, e trazer a mudança nos braços!

    bj de avelã,
    m.

  • Mikininha, je te comprends tres bien! Sabes, you can be so proud and grateful to yourself for being so aware, so honest, and so kind. No need to be a great exploradora, assim que voce ja em uma grande exploradora du seus universos interiores, de sua creatividad, and by extension of human being…BEING. Tout va bien ma cherie. Et tudo via ser ainda melhor. BECAUSE YOU ARE WHO YOU ARE. And thank you so much for that beautiful exemple.

  • lolita querida!

    me aqueceu o coração ler suas palavras!
    vamos juntas nessa estrada artística!
    beijos de framboesa
    amor,
    m.

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