Hiroshima, mon amour

On September 4, 2006 by miki

Veja, Sidney, achei que esse artigo do Luiz Carlos Merten merecia inaugurar o meu blog sobre cinema… Não que eu seja exatamente uma fã dele, mas lendo esse artigo eu realmente fiquei com vontade de assistir ao filme… não é engraçado?

De toda maneira, vão pra minha lista Chuva Negra de Shohei Imamura e Rapsódia de Agosto do Kurosawa.

Depois que o rio Ota passou em minha vida, tenho me interessado imensamente por cultura japonesa.

Beijos, Miki


nota: o blog “tudo sobre a sétima arte” foi descontinuado e seu conteúdo foi incorporado no “aqui


Indispensável para cinéfilos, clássico de Resnais sai em disco digital da Aurora, provando que continua novo, aos 47 anos.

Luiz Carlos Merten

Cheio de extras produzidos no Brasil, o DVD de Hiroshima, Meu Amor que chegou quinta a pontos-de-venda em todo o Brasil – em São Paulo, o lançamento da Aurora poderá ser adquirido (a R$ 37,50) na 2001 (tel. 3816- 7666), entre outras locadoras selecionadas – antecipa-se como um dos grandes lançamentos do ano e um resgate indispensável para cinéfilos. Quando Alain Resnais realizou seu clássico, em 1959, no bojo da nouvelle vague – mas sem se identificar realmente com o movimento de renovação do cinema francês no fim dos anos 50, pois foi sempre um solitário, como outros grandes da produção da França, Jacques Tati e Robert Bresson -, o flash-back já havia sido incorporado à linguagem do cinema, sendo moeda corrente sempre que o passado irrompia na vida dos personagens retratados na tela.

David W. Griffith usou o flash-back em seu monumento fundador da linguagem – O Nascimento de Uma Nação, de 1915. Em 1941, 26 anos mais tarde, Orson Welles armou um quebra-cabeças para contar a história de Cidadão Kane, fazendo constantes remissões ao passado de Charles Foster Kane revisto por diferentes pessoas. Passaram-se 11 anos e, em 1952, Vincente Minnelli ratificou o procedimento dramático em Assim Estava Escrito. O espectador, qualquer um, não apenas os cinéfilos, mais ligados em experiências estéticas avançadas, entendiam quando o passado voltava nas narrativas, mas Hollywood, para facilitar a compreensão, muitas vezes usava recursos de cor ou pequenas distorções da imagem para diferenciar o tempo, ou os tempos. Foi quando surgiu Resnais.

Hiroshima foi seu primeiro longa, mas desde 1948 ele já vinha se exercitando no curta, tendo construído obras que se tornaram referências do formato – Van Gogh, Gauguin, Guernica, Les Statues Meurent Aussi, Nuit et Brouillard, Toute la Mémoire du Monde. São obras de um grande diretor, mas é sempre importante a participação do produtor Anatole Dauman, que incitava Resnais a ousar. Nuit et Brouillard, embora curto, é um dos grandes filmes já feitos – o autor penetra com sua câmera no antigo campo de concentração do nazismo para debater o duplo horror, da guerra e do racismo, mas sem se esquecer do tempo. Aquele ambiente limpo, austero, não permite ao espectador sequer imaginar o que ali se passava, dez anos antes (Noite e Neblina é de 1955). E aí Resnais foi convidado a fazer um longa sobre a bomba atômica.

Emmanuelle Riva diz a Eiji Okada que está em Hiroshima participando de um filme. Ele pergunta qual é o tema. Ela responde – que outro filme se pode fazer em Hiroshima senão um que fale sobre a paz? Por volta de 1960, o mundo vivia sob a ameaça do confronto nuclear entre as superpotências. EUA e URSS detinham o segredo da bomba, possuíam extensos arsenais que dariam para destruir várias vezes a Terra. A idéia dos produtores era fazer uma obra de advertência, sobre (e contra) a bomba atômica. Um pouco mais tarde, exatamente em 1964, Stanley Kubrick e Sidney Lumet fizeram Doutor Fantástico e Limite de Segurança, dando diferentes tratamentos ao mesmo medo da hecatombe nuclear. Não era só uma preocupação de Resnais, portanto. E nem ficou ficou circunscrita àquele momento, apenas – em 1989 e 91, Shohei Imamura e Akira Kurosawa fizeram respectivamente, Chuva Negra e Rapsódia em Agosto.

Quando iniciou o projeto, Resnais empacou, em seguida. Sentiu que repetia a estrutura narrativa de Noite e Neblina. Chamou Marguerite Duras para assessorá-lo. Marguerite queria aprender a linguagem do cinema com o diretor que já era reconhecido como um grande técnico. Ele a exortava a fazer literatura. E saiu este filme raro. Uma francesa encontra este japonês em Hiroshima e vai para a cama com ele. De manhã, um gesto do amante ocasional traz de volta a imagem de outro amante, um alemão, morto durante a 2ª Grande Guerra, em Nevers, na França. A partir daí, Resnais embaralha tempo e espaço para contar a história dessa mulher que, no passado, foi punida por sua colaboração com o inimigo a quem amava. São lembranças dolorosas. Ela quer parar de falar. O amante japonês lhe pede que continue. Por que, ela quer saber? “Porque, em Nevers, eu tenho a impressão de que estive a ponto de perdê-la”, ele diz.

É impossível que Hiroshima, Meu Amor tenha, para o espectador de 2006, o mesmo significado que tinha para quem descobriu o filme, há 47 anos. As experiências de linguagem de Resnais foram incorporadas ao cinemão e até a publicidade. Mas a força do filme permanece inalterada – a beleza da fotografia, da música, a inteligência da montagem. Tudo isso e as performances de Emmanuelle e Okada. Resnais faria, a seguir, em 1961, outro filme-farol, O Ano Passado em Marienbad. Mais do que trabalhar o tempo, ele trabalha um imaginário.

Em ambos os filmes, o homem é sempre um sedutor que age como psicanalista, retirando, do fundo do inconsciente de mulheres frágeis – que Resnais filma como se fossem esculturas, humanizando-as pela voz – o mistério das histórias passadas. O diálogo de Hiroshima é daqueles que o cinéfilo sabe de cor . “Tu n’as rien vu à Hiroshima”, diz Okada na abertura (Você não viu nada em Hiroshima), com seu francês carregado de forte sotaque japonês. “Oui, j’ai tout vu; les musées y montrent au touristes” (Sim, eu vi; os museus mostram tudo aos turistas), responde Emmanuelle.

Rapidamente, o diretor mostra as imagens da destruição causada pela bomba em Hiroshima, há 61 anos, quando se produziu aquele calor de dez mil sóis. O que se segue é a história de amor, uma das mais belas do cinema. Os personagens não têm nome. Identificam-se, como as cidades, no desfecho. Isso também faz parte do fascínio imorredouro deste grande filme. A frase pode não ser nova, mas é perfeita – a idade cai bem nas obras que o tempo respeita.


Artigo publicado originalmente no “Caderno2” d’O Estado de São Paulo em 02.set.2006
Este post tem a intenção de disseminar o artigo de Luiz Carlos Merten. Todos os direitos são reservados aos seus respectivos proprietários. [grifos meus]


7 Responses to “Hiroshima, mon amour”

  • Miki, mas você ataque em todos os fronts, fico tonta de ver multiplicação de seus blogs! rs
    Eu adorei Hiroshima mon amour! Não vi Chuva negra, mas Rapsódia em agosto é muuuito bom!

  • (Quis dizer, você “ataca em todos os fronts”)

  • hahaha, karen, eu sou terrível!

    imagine, trabalhei 8 anos com internet e nunca tive um blog – não de verdade – e agora achei legal essa história e comecei a blogar. acho que tudo q ficou represado em 8 anos veio tudo de uma vez! hahahaha. quer dizer, vamos ver se a empolgação não acaba no meio do caminho :-)!

    qto ao cinema, eu adoro cinema, embora tenha um pouco de preguica de sair de casa, então é um dilema!a história q eu falo com o sidney, um grande amigo, é q ele foi assistir e carregou outros amigos e quase todo mundo dormiu no cinema. é um filme q eu tinha vontade de assistir e depois de ler o artigo do luiz carlos merten me deu mais vontade ainda! ainda bem que o placar está 1 a 1 (1 voto seu a favor e 1 voto do sidney “contra”).

    mas, o engraçado é q, na época em q conversávamos sobre isso, eu disse a ele q tive a mesma experiência com “rocco e seus irmãos” do visconti. teve uma sessao comemorativa do visconti aqui no belas artes e eu fui toda feliz, pois esse filme é um “crássico”. e ainda por cima arrastei minha melhor amiga. nossa, achei tão chaaaaaato. a estética até q era interessante, mas o filme, sinceramente, achei muito chato! rs

  • Minhas preferências são meio suspeitas, meu marido diz que eu gosto de filmes leeeeentos…

  • hahaha, então é por isso q nos demos tão bem! eu tb gosto dos filmes lentos. aliás, tenho uma queda pelos filmes franceses, o q explica muita coisa :-D. hahahaha

  • Só por curiosidade, você realmente deu uma guinada de 180 graus na sua carreira? Deixou tudo para se dedicar ao design (se entendi direito)?

  • hahaha, é mais ou menos isso. a história é um pouco mais comprida. mas, resumindo, eu trabalhava com web design e larguei tudo para abrir meu ateliê. o início, eu decidi q seria uma fase de experimentação, fiz várias coisas mas em comum elas tinham a pequena tiragem, a criação exclusiva e o “feito a mão” (bijus, móbiles, bolsas, roupas customizadas, jóias…). depois de um tempo de ateliê rodando, foquei minhas atividades na história das bonecas-personagens :-D! uma versão mais extended você pode ler lá no post que inaugurou esse mar de blogs – rs!.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *