Estômago

On March 19, 2008 by miki

enquanto passeamos por panelas, queijos, salsas, alecrins, tomilhos, gorgonzolas, bichos, batatas, carnes sanguinolentas, fumaças embevecedoras, aromas que quase dá para tocar, paisagens urbanas, celas, chulés… vamos conhecendo, um bocadito por vez, a história entrecortada de raimundo nonato, o protagonista de “estômago”.

a maneira como o diretor marcos jorge escolheu de apresentar a história mantém a platéia atenta, cada vez contando um pedacinho e costurando bem as passagens entre os fatos do agora com os que levaram raimundo a estar nesta situação. a pergunta desde o início é: por que um matuto, aparentemente inofensivo como nonato, estaria preso?

a trama vai seguindo, e, enquanto a gente tenta descobrir a resposta, dá-lhe mais xinxins de galinha acompanhado de arroz ao leite de côco, leitões assados inteiros (só faltou a maçã na boca :-), peixes enormes, carpaccios caprichados, feijoadas, coxinhas de galinha, macarrões à putanesca, pastéis de carne moída, angosturas, chiantis, macarrões à meia-noite, feijões e., carnes de panela com batatas coradas, entradinhas de formiga, couves refogadinhas, maria-lôcas…

como bem diz nonato, se a comida for boa… ah! “não há quem não se renda, quem não amoleça…” é um tipo irresistível de sedução, ora velada, quieta como um mineiro, ora escandalosamente explícita, sensual, sexual… que te traga num minuto e você sucumbe, porque não há nada que se possa fazer…

joão miguel está bárbaro encarnando a personagem principal. o que mais me impressionou foram as expressões que ele consegue moldar em seu rosto. incrível. e fabiula nascimento, que dá vida à prostituta íria, por sua vez, é a própria encarnação do prazer ilimitado e profundo da gula. a maneira como ela se compraz devorando desde um galho de salsinha até o prato mais requintado é puro deleite. feliz escolha de elenco e eu adorei ainda mais porque ela é uma moça com curvas, fora dos padrões ditatorias das magrezas esqueléticas e anoréxicas. bem, também não dava para uma glutona de marca maior como ela ser magrela né? de todo modo, salves para a beleza dos corpos reais com barriguinhas e celulites!

delícia, ainda, é acompanhar os nomes que vão passeando pelo filme: nonato canivete, bujiú, íria, zulmiro, giovanni, etcetera, lino, edson… os nomes que desfilam junto com o palavrório desbocado repleto de bundas, caralhos, putarias, putanescas, bucetas… são escolhas felizes que envolvem e costuram bem os universos do filme: a comida – que sempre cumpre esse papel de união, seja onde for – a prisão, a vida pregressa e a vida de hoje de raimundo nonato. e ainda tem a participação especial de denominações erradas das coisas como “alegrinho” e “puta vesga”. literalmente, uma delícia!

infelizmente, não posso dizer o mesmo da trilha sonora… faltou muito pouco para que ela formasse um uno com o filme. por exemplo, a idéia da repetição de uma música para todos os momentos de deleite com a comida é boa, mas achei que a música escolhida não foi um casamento perfeito… e, estranhamente, o filme não me deu fome. de duas uma: ou eu estava satisfeita demais ou isso é mau sinal!

agora, o que eu gostei mesmo de saber, foi que a produção contratou um consultor de comportamento no cárcere, o luiz mendes jr. (que faz uma ponta como carcereiro). ele próprio passou 31 anos e 10 meses na prisão. de bandido, virou escritor e consultor. ainda na prisão, escreveu “memórias de um sobrevivente”. fiquei interessadíssima em ler. eu amei carandiru, de drauzio varella, e conhecer um outro ponto de vista sobre o mesmo assunto é algo que me atrai muito.

bom… mas, depois de tudo isso, a pergunta “que raios fez raimundo que foi parar na prisão?” ainda continuava a me atormentar e, conforme o tempo foi passando, imaginei que o final, obviamente, seria a resposta, mas não foi. ele vai além. como ODEIO quando leio um artigo que conta o final sem aviso prévio, vou dizer apenas que eu “deixaria a questão no ar”. é um pouco non-sense essa opinião colocada desse modo meio enigmático aqui, mas, pelo menos, não estragamos o filme alheio! quem quiser, pode discutir comigo nos comments ;-).

de todo modo, me deu vontade de ver o filme novamente, o que, sem dúvida alguma, é bom sinal!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Estômago
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 11.abr.2008
Direção: Marcos Jorge
Roteiro: Lusa Silvestri
Música: Giovanni Venosta
Fotografia: Toca Seabra
Produção: Claudia da Natividade (Zencrane); Fabrizio Donvito, Marco Cohen e Gabriele Muccino (Indiana)

Visite o site do filme Estômago e reserve a agenda para o dia próximo dia 11 ^^!


6 Responses to “Estômago”

  • humm eu quero ver…
    adorei os comentarios…
    qdo sera q estreia miki?
    bjs

  • Fiquei supercuriosa.
    Mesmo sem ver o filme, fiquei com a impressão de o roteiro ficaria bem interessante caso se concentrasse na história de um cozinheiro desses que não tem referência nenhuma, desses tantos migrantes que trabalham nos restaurantes bacanas de São Paulo
    Um Ratatouille do Nordeste. Crime passional, bem, aí é com a questão de bilheteria…
    Gostei muito do texto. Bjs.

  • Curiosa já estou, tenho visto tantos comentários sobre esse filme! Legal ler sua opinião!

  • laila, a estréia é no próximo dia 11!

    ana, é verdade, concordo contigo! o filme não deixa isso muito claro, mas, de alguma maneira, ele aborda essa questão da jóia a ser lapidada sim!
    vc sabe q é sempre uma honra ouvir um elogio assim vindo de alguém como vc, obrigada!

    karen, como uma boa amante da cozinha e das artes, vale a visita ao cinema ;-)!!

    beijinhos, meninas!
    miki

  • adorei seu ponto de vista, jornalistico e lirico.
    beijo

  • =) hehehe, tks, marcelito!
    besos, miki

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