de quando a gente resolve (um pouco) os próprios desconfortos

On November 17, 2008 by miki

estou feliz comigo mesma porque consegui resolver uma coisa que estava me incomodando.

há cerca de um ano, o p’tit, que é um coletivo incrível (eles fazem roupas muitíssimo criativas que me arrebatam e me fazem sonhar), convidou o mundomiki para uma parceria, fato que me deixou muito feliz e honrada.

as mikos já estavam sendo gestadas há vários meses e eu achei que seria uma ótima oportunidade para lançá-las. fizemos um evento que mesclava o bazar da natal que eles sempre fazem nessa época do ano com o lançamento das pequenas. convidei meu professorzinho de desenho david s. fofo para assinar o cenário, montamos o cirquinho e eu fiquei por lá vários dias batendo bolinho e passando café para as visitas. foi bacana, amigos apareceram, adotaram mikos e conheceram o trabalho dos p’titos e até a biti averbach veio conhecer um pedacinho do mundomiki, me entrevistar e fez uma matéria em seu ótimo blog, o “moda sem frescura“.

entre abraços, reencontros e perfume de bolinho de limão com semente de papoula, fubá com canela, banana e otros más, o lançamento se foi e a parceria continuou por todo este ano.

muita coisa aconteceu desde então. a linha das mikos era uma tentativa de eu não desistir do meu sonho, já que eu tinha chegado à conclusão (depois de pensar horrores) de que não era possível eu sobreviver com a adoção das outras bonecas [as mikimotos]: elas eram artesanais demais, únicas e demandavam uma energia criativa e um tempo cujo retorno financeiro ficava inviável.

depois de muito me questionar, ficar deprimida, olhar pro teto e não ter vontade de fazer nada… me surgiu na idéia as mikos, parecia um caminho promissor: eu continuaria fazendo as bonecas (trabalho que adoro e um dos grandes motivos que me fez largar tudo e abrir o ateliê), elas teriam também sua própria identidade, personalidade, história de vida e guarda-roupa, mas seriam restritas a um conjunto de cinco bonecas. ou seja, eu faria todo o trabalho de desenvolvimento de personagem uma vez e poderia lançar coleções de roupas sazonais.

quanto ao blog, a idéia original era que fosse um blog colaborativo, onde as 5 personagens escreveriam, fazendo posts semanais. fiquei feliz porque isso me daria a oportunidade de melhorar minhas habilidades com a escrita, já que eu teria que adequar cada post à personalidade de cada miko.

também me pareceu bom porque, caso eu bombasse de pedidos, seria mais fácil terceirizar a fatura das bonecas, já que elas não eram exatamente únicas como as anteriores.

quando eu comecei a gestar a idéia das mikos lá atrás (se não me engano, em meados de junho de 2007), a minha questão mais central era conseguir aumentar a produtividade, já que, naquele momento, era a única saída que eu via para poder conseguir sobreviver sem abandonar o meu sonho. porém, a verdade é que, quando do lançamento, eu já não estava mais tão segura de que aquilo era o que queria realmente fazer. a conversa com os p’titos já vinha de muito tempo atrás, mas só tinha se concretizado de fato naquele momento. então, como eu sou muito fã do trabalho deles e acho que nossos processos criativos têm muito a ver, achei que valia a pena tentar a parceria.

eu já não estava tão certa por dois motivos:

o consumo exacerbado que assola o mundo hoje me incomoda muito. e eu tinha chegado à conclusão de que se eu quisesse sobreviver com a adoção das mikos, eu precisaria vender muitas mikos por mês. o que implicaria em chuchar bonecas em todo mundo para todos os lados. e isso era uma questão que me incomodava cada vez mais. (aliado a isso, há o fato de que eu ODEIO vender. não nasci pra isso, não tem jeito). por isso, eu gostaria que quem adotasse uma boneca, o fizesse porque realmente ia ter um vínculo com ela e não fosse algo que, depois de duas semanas ou três meses, ficasse esquecido, entulhando sua gaveta. esse consumo vazio, eu não queria.

o outro motivo era que eu não seria capaz (e nem teria saco) de suprir a produção de bonecas sozinha na eventualidade de conseguir ter uma demanda assim tão grande. e aí começava meu outro drama: eu não queria explorar uma costureira pagando uma micharia para ela produzir quinhentas mil bonecas =(. muitos amigos me aconselharam dizendo que meus temores eram infundados, que se eu pagasse o que o mercado definiu como o piso dela, tudo estava bem. mas eu, comigo mesma, não conseguia me convencer disso. não acho que seja justo, por exemplo, que um lixeiro – cujo serviço é essencial mas ninguém obviamente quer fazer – ganhe a miséria que ele ganhe.

enfim, cada vez mais essas questões me atormentavam. e eu me perguntava: “mas, então, o que será que eu quero ser quando crescer?” eu achava que tinha encontrado a resposta quando, enfim, pensei e construí todo o projeto do mundomiki. naquele tempo, eu achava que queria ser inventora de bonecas, poder criar suas vidas, suas histórias, dar vida a seus sonhos, dar forma a elas… criar suas roupas… mas acho que eu tinha me equivocado. ainda não era exatamente aquilo, muito embora, esteja sendo uma experiência super valiosa.

pensando em tudo o que eu tinha construído durante a vida, uma pulguinha começou a pular atrás da minha orelha… e num determinado momento, eu cheguei à conclusão de que gostaria de dar a minha contribuição – por pequena que fosse – para um mundo melhor. fiquei, então, matutando como eu poderia fazer isso redirecionando o mundomiki, sem ter que começar outro projeto que não tivesse nada a ver com ele, já que, eu ainda acredito que ele ainda tem muito para viver (afinal, é o meu sonho, é a razão pela qual eu joguei tudo para o alto e mudei a minha vida).

como eu sempre gostei de escrever (desde muito nova) e vinha ampliando minhas habilidades desenhísticas (como eu nunca imaginaria que fosse capaz, de verdade, não é falsa modéstia), pensei que ser escritora e ilustradora poderia ser um caminho para a tal construção de um mundo melhor. eu acho que minhas ilustras se encaixam muito no universo editorial infantil e pensei que eu poderia desenhar e escrever na área de educação. isso, com certeza, teria um alcance maior do que um projeto restrito como o mundomiki que fala com pessoas uma-a-uma. e se eu pudesse ter um alcance maior, poderia ajudar mais pessoas nessa minha idéia maluca de “um mundo melhor”.

bater em porta de editoras já tinha se mostrado um fracasso. como eu não tenho carreira nessa área que quero entrar, decidi, então, que o melhor a fazer era criar um portifólio que mostrasse minhas competências e habilidades. a própria história das mikos serem responsáveis por plantarem os sonhos das pessoas e de cuidarem desse jardim dos sonhos no mundomiki era um tema interessante. foi assim que surgiu a idéia de começar a escrever um conto em que elas seriam as protagonistas. uma história onde elas, preocupadas com a escassez dos sonhos “de verdade”, saíram à procura de onde é que eles poderiam estar. com esse conto, eu queria despertar nas pessoas a vontade de viver uma vida onde elas seguissem mais seu coração, buscassem a sua verdade e tentassem se desvencilhar da obrigação que a sociedade impõe hoje de todos sermos “pessoas bem-sucedidas”.

foi um desafio auto-imposto de publicar semanalmente um capítulo ilustrado e contar com a participação de leitores que, porventura, quisessem fazer sugestões contribuindo para o desenvolvimento da história. (essa idéia eu roubei do site para crianças do banco real, o brincando na rede – uma das minhas meninas dos olhos do tempo em que eu trabalhei com web design).

eu não imaginava que teria fôlego e criatividade para escrever por cerca de 8 meses ininterruptos. e, no meu primeiro esboço de como seria a história em linhas gerais, ela nunca chegaria a impressionantes 28 capítulos e um arquivo .doc de 87 páginas! no final, a crise criativa já batia um pouco, mas, de todo modo, fiquei muito orgulhosa de ter conseguido vencer o meu desafio auto-imposto.

com tudo isso, eu já estava convicta de que não queria mais dar foco na adoção de bonecas. elas continuariam existindo, mas eu não ia mais, digamos, “fazer propaganda” delas na minha newsletter ou nos blogs. mas, elas estariam à disposição, se alguém se interessasse em adotar.

mas, então, a carol do p’tit (que é a sócia responsável pela parte de vendas, marketing, relacionamento e otras cositas más) me ligou pedindo uma reunião. era para darmos uma repaginada nas mikos para o bazar de natal. por duas vezes eu disse sim. mas, no fundo, eu sabia que aquilo estava me incomodando. então, na sexta-feira fim do dia, não sei bem porquê, eu decidi que aquilo não estava certo e que eu não queria, que não fazia o menor sentido pra mim investir naquilo. fiquei triste porque eu não gosto de desassumir compromissos aos quais eu já tivesse dado o meu consentimento antes. mas aquilo estava me machucando. e, de mais a mais, não haveria novidade para o público do bazar, tudo parecia meio deslocado.

então, voltando ao assunto do início do post (eu sei, sou meio rocambolesca para contar as coisas… sorry), eu fiquei feliz por ter, finalmente, conseguido chegar a essa conclusão e ter tido coragem de expor os meus motivos, de ter falado com os p’titos. e também feliz porque eles compreenderam e me apoiaram. afinal, é por isso que combinamos e temos admiração mútua pelos nossos trabalhos.

mas isso foi só um desabafo! estou feliz hoje =).



2 Responses to “de quando a gente resolve (um pouco) os próprios desconfortos”

  • Muitas coisas andaram acontecendo por aqui! rs
    No final, a parceria acabou?

  • hehe, é verdade, karen!

    com a minha crise criativa, comecei a escrever sobre o que estava acontecendo comigo. para mim, é sempre um jeito de elaborar a coisa, me ajuda muito. só que antes, eu fazia só pra mim mesma. dessa vez, achei interessante a idéia de escrever aqui, já que o “era uma vez…” era originalmente, para isso mesmo, além das notas para os posts dos meus 300 outros blogs.

    a parceria no formato mikos acabou. mas ficamos próximos e, se surgir algo que tenha a ver e seja bom para ambas as partes, com certeza a gente pode voltar a conversar!

    bjs e obrigada pela visita ^^

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