“E então, Éolo enlaçou a ninfa nos braços e voou para longe com ela… Cruzaram os ares, descobrindo novos horizontes azuis… O vento batia nos cabelos levemente cacheados e intensamente negros da bela deusa…”

E por entre os vidros opacos da janela, pude ver a neve caindo branca e mansamente. Um vento forte começava a soprar, era o deus Éolo que se aproximava trazendo junto de si a deusa dos cabelos negros. E eles chegaram voando e então, de repente, começaram uma dança desvairada em meio ao meu jardim cheio de neve. Seu vestido leve e vaporosamente azul acompanhava suavemente seus movimentos mais sutis.

E em meio à louca dança, o sol aparecia, lindo, grande, belo, esplendoroso… Maravilhosamente dourado, redondamente luminoso, cheio de cores e energia… A neve começava a derreter e a se transformar em mar, um mar límpido, cristalino e translúcido que envolvia os dois dançarinos em suas ondas fortes…

E o Mar vibrava, fortemente vibrava. Vibrava com suas ondas energéticas, vibrava, somente vibrava… O Mar maravilhava minhas vistas, como se fosse algo que nunca houvesse visto antes, algo assim místico e mágico, algo com um tom transcendental, deslumbrante… E eu achava lindo como águas, apenas monte de águas verdes pudessem se mover de forma tão harmoniosa, em gestos e sons e cores… Estava estática e mudamente fascinada pelo espetáculo que via se formar assim, tão de repente frente a meus olhos… O Mar que podia ser tudo e nada ao mesmo tempo… sim! Porque, se ele refletisse azul, poderia ser céu, mar céu, Marcel, algum belo surfista de corpo perfeito e dourado, ou talvez, se refletisse branco, poderia ser uma gaivota em busca de alimento… então, então… então ele podia ser tudo que quisesse em essência, embora não fosse mais que água salgada… E onde entrariam Éolo e a deusa? Éolo ventando numa dança louca criou o mar das neves. Neves que eram salgadas das lágrimas de uma ninfa que nunca pôde sair de sua redoma de vidro, visto que era o bibelô favorito dos deuses do Olimpo. Então ela chorara longa e largamente a ver se minorava seu sofrimento de viver enclausurada o resto de seus dias eternos…

Éolo fez o mar para que abrigasse sua deusa de cabelos longos e negros. Éolo fez o mar para que nele ela morasse para sempre, protegida e salva, como rainha das águas… Porque ela era uma sereia… E ela era a ninfa da redoma. Éolo a raptara tal eram a paixão e a volúpia que lhe moviam… O amor que nutria por ela era Amor… Era um sentimento nobre e puro, era ingênuo como os sentimentos de uma criança. Porque ele a amava forte e intensamente, arrebatadoramente, silenciosamente, deliricamente… Sim… ela a amava…

24.iv.1991