Autismo por Mariana Serrajordia Lopes

On March 11, 2008 by miki

Uma amiga de velhos tempos conhece profundamente sobre autismo. Ela tem um irmão autista e a mãe foi uma das fundadoras da AMA (Associação de Amigos do Autista). Ela também se especializou em terceiro setor e, dia desses, numa lista da qual participamos, um outro amigo perguntava a opinião dela a respeito de uma matéria que saiu na Wired sobre o assunto. Fiquei muítissimo impressionada e disse-lhe que “a lucidez e coerência com que você argumenta sobre o tema deixam claro para o mais leigo no assunto que você fala com propriedade.” E, na seqüência, pedi para poder publicá-lo aqui, para que fosse possível dividi-lo com mais pessoas.

A moça se chama Mariana Serrajordia Lopes :-).
O artigo da Wired é o The Truth About Autism: Scientists Reconsider What They Think They Know.

Estou reproduzindo o texto na íntegra e, muito embora, para uma lista de discussão, o texto esteja muito bem construído, talvez vocês se espantem com o final que deixa um gostinho de “quero mais” =)!

Meus agradecimentos à Mari pela gentileza em compartilhar seu conhecimento conosco.


A idéia de que autismo não é uma deficiência, mas um “estilo cognitivo”, com vantagens e desvantagens, não é, absolutamente, nova. Em 1996 Francesca Happe (da turma do Simon Baron-Cohen e Uta Frith, Inglaterra), veio ao Brasil a convite da AMA, e mostrou pesquisas do grupo deles que apontam que as pessoas com autismo são mais rápidas e eficientes para identificar o desenho real por trás de uma ilusão de ótica ou de um mosaico cheio de detalhes. Nestes testes, as “pessoas normais” não conseguem olhar cada parte separadamente e são enganadas pela influência das partes umas nas outras, pois não conseguem evitar o esforço do cérebro em fazer um sentido global com todos os elementos da cena. Já as pessoas com autismo são extremamente eficientes em enxergar cada parte como se o resto da imagem não estivesse ali — e por isso não são enganadas pelas ilusões de ótica ou conseguem copiar mais rápido um desenho muito complexo. Mas isto tambem ajuda a entender porque um ambiente cheio de detalhes desimportantes é tão estressante para pessoas com autismo – todos os detalhes recebem igual atenção – enquanto que os “neurotípicos” conseguem abstrair elementos não essenciais à cena e se saem melhor.

Uma grande diferença entre o pessoal de Londres e a forma como esta reportagem aborda a questão é que na Wired o povo parece magoado com o resto do mundo, e querendo mostrar, com um tom raivoso, como todos estão errados.

No caso da Baggs, estrela e autora dos vídeos no YouTube, me parece que há uma grande confusão entre o geral e o particular. Ela diz ter autismo, e aí se volta contra tudo o que as pessoas dizem sobre quem tem autismo. Todo mundo diz que pessoas com autismo têm inteligência deficitária, mas ela quer gritar por aí que ela não tem inteligência deficitária. Tá bom, e daí?

Pensando no que sei sobre autismo, eu diria que ou a Baggs não tem autismo, ou alguém muito mal intencionado usou imagens de uma pessoa com autismo pra montar essa personagem Baggs. Autismo, por definição, envolve inabilidade de se relacionar com pessoas, e esse comportamento dela de viver blogando e conversando na internet não me pareceu coerente (a história da Temple Grandin tem algumas coisas em comum, mas tem diferenças fundamentais, e, pra mim, é mais coerente). A articulação dela também não me pareceu nada coerente com o fato de ela gostar de passar o dia entoando uma mesma melodia, chacoalhando uma folha de jornal e balançando o corpo, e precisar de apoio para comer e tomar banho. Mas não vou dizer que é impossível que essa história seja verdadeira, e daí o que ela tem é uma coisa que não pode ser simplesmente definida como autismo, e acho complicado a reportagem assumir o tom de que ela está sendo uma porta-voz de tantos outros na mesma situação, dando a entender que todo mundo que foi diagnosticado com autismo está sendo injustiçado pelo preconceito.

Sobre inteligência, é também muito velha a teoria de que a pessoa com autismo é como uma pessoa dentro de uma bolha: ela é inteligente, apenas não consegue se comunicar. E quase tão velha é a constatação de que, mesmo com testes projetados para dispensar as habilidades de comunicação, a maioria das pessoas com autismo apresenta inteligência bem abaixo da média. Dentro daquele escopo diagnóstico mais amplamente aceito (quero dizer, não trazendo o Bill Gates e companhia para o universo dos diagnosticados com autismo), ainda é vigente a convicção de que na grande maioria dos casos o autismo vem acompanhado de déficit cognitivo. E se formos alagar o critério diagnóstico e trazer Bill Gates, Einstein, colegas de Poli, etc, para o clube dos diagnosticados, aí a questão da inteligência muda, mas não da forma como colocada no artigo. Quer dizer, há pessoas com autismo e ao mesmo tempo muito inteligentes? Há, e ninguém duvida. Essa inteligência não é uma inteligência oculta, que ninguém vê, e que precisa que os cientistas troquem seus testes para poder detectá-la.

Quem trabalha com autismo está preparado para usar testes e ferramentas que prescindam da habilidade de comunicação. O engano que a reportagem sugere que seja cometido nos quatro cantos do mundo, e que é comparado a testar um cego a partir de ferramentas visuais, é básico demais! Já deu tempo de aprendermos sobre isso; pelo menos quem está trabalhando sério com autismo sabe disso, é um pressuposto básico.

Um outro ponto muito curioso é como tem movimentos radicais e opostos crescendo e ganhando força: de um lado, o movimento de aceitem-nos como nós somos; do outro, Cure Autism Now, Defeat Autism Now.

Pra um leigo, eu acho que a reportagem da Wired deixa muito forte a mensagem que depois é resumida na analogia com os gays. Mas eu acho que não dá pra negar o grau de deficiência de pessoas como o meu irmão. E não só ele, não…

Eu continuaria, mas tenho que sair!


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