a queda

On November 21, 2007 by miki

“Caindo, caindo, caindo.
A queda não terminaria nunca?”
(Lewis Carroll)

[cartazete de abertura do desfile]

Esse é o primeiro traje da coleção. Primeiro em vários sentidos. É o primeiro porque tem como referência o capítulo inicial de Alice no País das Maravilhas. É o primeiro porque foi o look que abriu o desfile. É o primeiro porque foi o traje primogênito em concepção e produção.

Eu queria um traje que representasse toda a viagem de Alice a partir do momento em que ela entra na toca no encalço do coelho branco e começa a cair, a cair, a cair. A cair indefinidamente, uma queda tão longa que ela tem tempo de fazer mil elucubrações, apreciar a tão exótica paisagem para um buraco até finalmente aterrisar em um grande salão rodeado por muitas portas.

Durante a queda, passam por ela toda a sorte de objetos (e pensamentos por sua cabecinha): de potes de geléia a estantes, de mapas a guarda-louças.

[simulando a situação da queda na frente da minha estante]

Imediatamente, pensei num vestido com uma roda de saia que fosse de um tamanho bem absurdo, como se fosse um tipo de pára-quedas para essa sua queda infinita. Senão, de que outra maneira ela cairia por tanto tempo sem se machucar ao chegar ao destino? A isso, somou-se a moda vitoriana em que as mulheres usavam crinolinas para armar seus vestidos. Voilà! A base do primeiro traje estava pronta!

Para a parte de cima, optei por um corpete que não fosse extremamente decotado – o que também não era moda naqueles tempos na Inglaterra – com um contraponto porém (pois senão ficaria sendo apenas um “copy-and-paste” de trajes do passado): uma manga que se assemelhava a uma flor e em uma só das cavas.

Por conta de algumas alusões a questões geográficas durante a queda de Alice, decidi que gostaria de adornar a saia com um mapa-mundi. Então fui pesquisar para ver se encontrava um que representasse o domínio da Inglaterra no século XIX. Assim, as áreas em vermelho-goiaba que constam no traje fazem alusão às colônias inglesas dessa época.

A partir do momento em que o mapa se configurou como um elemento bastante marcante no look, foi completamente natural a escolha da cor base azul, representando a imensidão líquida na qual os continentes se encontravam.

[shot no ateliê dos p’titos!]

O próximo passo era pensar em como estruturar a roda da saia, pois era imprescindível que ela ficasse com aquele aspecto de rodada em qualquer circunstância. O meu desejo era fazer uma estrutura à imagem e semelhança de uma crinolina, mas, por falta de tempo e com a minha parca habilidade com os metais, acabei optando por uma armação em papel mesmo. Isso foi um cálculo quase engenherístico (de modo que cada vez mais me convenço de que meus dois anos na faculdade de Engenharia foram muito significativos na minha formação!).

Por fim, para arrematar, eu queria uma daquelas “golas-colares” brancas muito utilizadas na moda vitoriana. Aqui, conto um segredo: meu querido professor de desenho David S. (que além de artista plástico é também figurinista e cenógrafo) produziu um figurino para uma peça da Frida Kahlo em que um dos trajes tinha uma espécie de gola-colar como essa que eu queria fazer. Achei a solução que ele criou para o objeto genial e “encampei”: são várias camadas de um galão branco feito de um voal brilhante. Encampei é uma maneira muito travessa de dizer que roubei descaradamente a idéia dele hohoho ^^. Mas fiquem tranquilos que ele foi o primeiro a saber (e a aprovar).

[detalhe ~ foto por gumpa@ethnocentrics]

Fiquei bastante satisfeita com o resultado final. E como eu queria seguir a receita de bolo que reza que o look que abre e o que fecha um desfile devem ser “ohhhhh”, esse me pareceu perfeito também sob esse ponto-de-vista.

Também adorei o efeito da manga, que foi um experimento totalmente novo nas indumentárias que eu tinha feito até então. Aliás, considero essa coleção um marco pra mim, pois consigo ver uma evolução do que eu fazia até então, fato que me deixou muito realizada.

Pra não dizer que tudo são flores, confesso que não fiquei 100% satisfeita com a solução que fecha a roda da saia. Eu utilizei colchetes, mas, com a peça pronta, achei que eles interferiam um pouco mais do que eu gostaria no visual do todo.

A escolha da modelo

Mais do que qualquer outro motivo, a Domi foi a escolhida para vestir este traje por questões estéticas. Seu cabelo preto e compridíssimo faziam um belo contraste com o incomensurável rodado vestido turquesa.

Creio que essa menina aspirante a cineasta e amante do cinema só usaria um traje como esse se estivesse representando uma personagem em um dos filmes que ela certamente fará quando crescer. No papel de stylist, não creio que é um traje que tenha a ver com o seu modo de ser.

Uma cena

“… mas quando viu o Coelho tirar um relógio do bolso do colete e olhar as horas, e depois sair em disparada, Alice se levantou num pulo, porque constatou subitamente que nunca tinha visto antes um coelho com bolso de colete, nem com relógio para tirar de lá, e, ardendo de curiosidade, correu pela campina atrás dele, ainda a tempo de vê-lo se meter a toda pressa numa grande toca de coelho debaixo da cerca.”

Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

Cenas do próximo capítulo

Na próxima semana, adorarei contar os bastidores do segundo look!

Até lá!

[a seguir…]

BÔNUS TRACK
» Veja mais fotos do primeiro look @ mundomiki’s flickr


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